Eu mesmo fiz esta fotografia. E o que ela mostra não pode ser tratado como um detalhe qualquer.
Na entrada do histórico Palácio da Justiça, no Centro de Rio Branco, uma estrutura permanece pichada com as letras “CV”, sigla amplamente associada ao Comando Vermelho. Segundo tenho observado, essa inscrição está ali há meses.
É evidente que a responsabilidade pela pichação é de quem a fez. Mas, depois de meses, a responsabilidade pela permanência daquela marca precisa ser cobrada de quem administra e deve conservar o patrimônio.
Se o Judiciário sabe que a pichação está ali e não determina que seja apagada, a omissão passa a ser responsabilidade institucional.
Não estamos falando de uma parede abandonada em algum ponto esquecido da cidade. Estamos falando do Palácio da Justiça, inaugurado em 1957, um patrimônio histórico que representa décadas da trajetória do Poder Judiciário acreano.
O prédio hoje funciona como Centro Cultural do Tribunal de Justiça. Se cabe ao Judiciário administrar e preservar aquele espaço, cabe também a ele adotar as providências necessárias para retirar uma inscrição que degrada o patrimônio.
Não é razoável transferir essa responsabilidade para a população.
Quem deveria mandar apagar?
O próprio Judiciário.
Uma imagem incompatível com o que o prédio representa
O contraste chega a ser constrangedor.
Ao fundo da fotografia estão as colunas do Palácio, as bandeiras e toda a simbologia de uma instituição responsável pela aplicação das leis. Em primeiro plano, permanece estampada uma sigla associada a uma das maiores organizações criminosas do país.
A Justiça combate o crime por meio das instituições do Estado, mas permite que uma referência associada ao crime permaneça exposta diante de um de seus próprios símbolos históricos.
Não se trata de responsabilizar o Tribunal pela ação de quem pichou. Trata-se de responsabilizá-lo por aquilo que está ao seu alcance resolver e, segundo o relato sobre o tempo de permanência da inscrição, ainda não resolveu.
Uma lata de tinta e alguns minutos de trabalho seriam suficientes para eliminar aquela marca. Se ela permanece durante meses, já não estamos discutindo apenas vandalismo. Estamos discutindo manutenção, zelo e responsabilidade administrativa pelo patrimônio público.
Quem exige respeito também precisa cuidar dos próprios símbolos
O episódio ganha dimensão ainda maior diante da crise de confiança enfrentada por instituições brasileiras.
O Judiciário possui enorme poder. Decide sobre liberdade, patrimônio, eleições, contratos públicos e direitos dos cidadãos. Exatamente por isso deve estar submetido à fiscalização, à crítica e à cobrança da sociedade.
A população não pode ser chamada a respeitar as instituições enquanto essas mesmas instituições demonstram descuido com seus próprios símbolos.
O Palácio da Justiça não pertence a um desembargador, presidente de tribunal ou servidor. É patrimônio público. É patrimônio do povo acreano.
Portanto, preservá-lo não é favor. É obrigação.
A pergunta é simples
Não precisamos criar teorias sobre quem escreveu aquelas duas letras. Isso cabe às autoridades investigarem, caso entendam necessário.
A questão registrada pela minha fotografia é muito mais objetiva.
A pichação está lá.
Está diante do Palácio da Justiça.
E, segundo tenho acompanhado, permanece há meses.
Quem praticou o vandalismo responde pelo ato. Mas quem tem a responsabilidade de conservar o prédio precisa responder pela demora em eliminar seus efeitos.
A crítica, portanto, deve chegar ao endereço correto:
cabe ao Judiciário mandar apagar.
Enquanto isso não acontecer, cada pessoa que passar pela Rua Benjamin Constant continuará vendo uma sigla associada ao Comando Vermelho estampada diante de um dos maiores símbolos da Justiça acreana.
E isso produz uma ironia difícil de ignorar:
a Justiça tem autoridade para determinar tantas coisas à sociedade, mas até agora não conseguiu determinar que se apaguem duas letras de seu próprio patrimônio.
Willamis Franca, jornalista do notícias da hora
Atualização: TJAC informa que pichação no Palácio
da Justiça é recorrente e que inscrição já foi apagada
Após a publicação da imagem mostrando a sigla “CV” pichada em uma estrutura do Palácio da Justiça, no Centro de Rio Branco, o Notícias da Hora recebeu contato de uma servidora do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC), que apresentou esclarecimentos sobre a situação.
Segundo a servidora, diferentemente da impressão inicial de que a inscrição estaria há meses no local sem qualquer providência, o Tribunal vem realizando a pintura e a retirada das pichações, mas o patrimônio volta a ser alvo de vandalismo.
À reportagem, relatei que havia passado pelo local na segunda-feira (21) e retornado nesta quarta-feira (23), quando fiz a fotografia que mostra a inscrição “CV”. Conforme a informação repassada pela servidora, na própria segunda-feira, durante a tarde, o ponto havia sido pintado e estava sem a inscrição.
Isso indica que a nova pichação registrada na fotografia ocorreu entre a tarde de segunda-feira e esta quarta-feira, e não estava no local há meses, como havia sido inicialmente interpretado.
A servidora também encaminhou à reportagem uma fotografia mostrando que o local já foi novamente pintado após o registro feito nesta quarta-feira, retirando a inscrição.
Diante dos esclarecimentos, é necessário fazer a correção: não há elementos para responsabilizar o Tribunal de Justiça por deixar a sigla permanecer durante meses no patrimônio. Pelo contrário, a informação apresentada pelo TJAC indica que as pichações vêm sendo removidas e posteriormente refeitas por terceiros.
O problema revelado pela fotografia, portanto, passa a ser outro — e talvez ainda mais preocupante: a reincidência do vandalismo contra um dos mais importantes patrimônios históricos do Judiciário acreano.
O Palácio da Justiça foi inaugurado em 1957, foi a primeira sede da Corte acreana e é tombado como Patrimônio Histórico e Cultural do Estado desde 2002. O próprio TJAC define a preservação do conjunto arquitetônico e da memória do Judiciário como uma das finalidades do espaço.
A sequência relatada — pinta-se em um dia e, pouco tempo depois, alguém volta a pichar — também levanta uma questão que merece atenção: quem está praticando reiteradamente esses atos e por que justamente um patrimônio ligado à Justiça está sendo alvo?
A fotografia continua sendo forte. Mas, diante das novas informações, a responsabilidade precisa ser colocada onde os fatos permitem colocá-la: sobre quem está vandalizando repetidamente o patrimônio público, e não sobre quem realizou a remoção.





