Rio Branco, AC, 3 de novembro de 2026 15:25
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O imposto é nosso e a conta… bem, a conta nunca é deles

O acreano aprende cedo a medir o peso da vida pelo esforço do braço. Do feirante no Mercado Velho ao trabalhador que pega o ônibus de madrugada em Rio Branco, todo mundo sabe exatamente o valor do dinheiro ganho sob o mormaço da nossa terra. Por isso, quando a conta do Estado aumenta, a conversa atravessa a mesa de qualquer família.

Recentemente, a liderança do governo na Assembleia subiu à tribuna para, pasmem, defender o aumento do ICMS dos combustíveis e do gás de cozinha com uma frase que tenta soar simples: quem tem carro que pague.

A lógica parece bonita no discurso, mas esbarra na realidade da vida real.

No Brasil e no Acre, o modal de transporte é o rodoviário. O combustível que move o carro de passeio é o mesmo que traz o alimento, que movimenta o frete e que abastece o comércio. Quando o ICMS sobe, a conta não fica retida na garagem de quem tem dinheiro. Ela desce imediatamente para a prateleira do supermercado e desembarca no prato de comida de quem anda a pé. O mais pobre é quem sente o golpe mais forte.

O sociólogo Zygmunt Bauman explicava bem esse fenômeno. Segundo ele, a marca da política contemporânea é a privatização dos privilégios e a socialização dos prejuízos. O custo da máquina pública é empurrado para a base da pirâmide, enquanto a cúpula se exime da responsabilidade. E Pierre Bourdieu chamava isso de violência simbólica, que seria usar o discurso público para fazer a injustiça parecer uma medida neutra ou justa.

Só que a memória da nossa população não é curta.

Não faz muito tempo, a Operação Mitocôndria expôs um esquema de desvio de verbas exatamente da merenda escolar da rede pública estadual, no qual o filho, o cunhado e o sobrinho do próprio deputado acabaram alvos de mandados de prisão.

E é aí que o raciocínio racha ao meio.

Se a regra do parlamentar é que “quem usa é quem deve pagar”, como fica a conta dos atos supostamente praticados por sua própria família?

Eu não tenho presídio, mas paguei com o meu imposto a estadia do filho, do cunhado e do sobrinho do deputado enquanto estiveram presos. Eu não tenho escola pública, mas paguei pelo dinheiro que foi desviado da merenda que deveria alimentar as crianças da nossa rede estadual. Eu não tenho carro de luxo, mas continuo pagando o aumento do combustível no quilo da farinha, do arroz e no botijão de gás.

O cidadão comum virou o fiador universal de um sistema perverso, onde ele paga a conta da inflação no consumo do dia a dia e paga o prejuízo moral e financeiro do dinheiro público roubado.

Não se trata de discutir quem anda de carro ou quem anda a pé. Trata-se de expor a incoerência de quem exige sacrifício do povo para fechar as contas do governo, mas silencia sobre o custo que seus pares e familiares impuseram aos cofres públicos.

No fim das contas, a nossa gente segue carregando o Estado nas costas, sustentando estradas, escolas, prisões e privilégios que nunca pediram para financiar.

A floresta conhece bem o ciclo das águas: o rio transborda quando retém o que não lhe pertence, mas quem sofre a enchente é sempre quem mora na beira. É hora de lembrar que a conta dos erros de cima não pode continuar pingando, gota a gota, no bolso de quem só quer o direito de trabalhar e viver em paz.

*Tácio Júnior é jornalista, pela Universidade Federal do Acre, e acadêmico de sistemas para internet, no Instituto Federal do Acre.