Rio Branco, AC, 17 de outubro de 2026 15:52
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A emoção passa, o aplauso silencia, mas o caráter permanece: o que Ayres Rocha ensinou ao jornalismo acreano. Professor, saudades!

Há despedidas que nos fazem chorar. Outras nos obrigam a pensar. E existem aquelas, raras, que nos colocam diante de um espelho, levando-nos a refletir sobre nossas escolhas, nossas atitudes e a maneira como tratamos as pessoas. A partida de Ayres Rocha pertence a essa última categoria.

A emoção dos primeiros dias passa, as homenagens diminuem, as redes sociais encontram outros assuntos e a rotina das redações segue seu curso. Mas há uma pergunta que não deveria desaparecer quando as lágrimas secarem: o que aprendemos com Ayres Rocha e com a maneira como ele viveu o jornalismo?

Afinal, a grandeza de um profissional não se mede apenas pelo tempo diante das câmeras, pela audiência ou pelo prestígio conquistado. Existe algo mais profundo, que nenhuma estatística consegue traduzir: o respeito que permanece quando já não há obrigação de aplaudir.

Ayres Rocha morreu aos 62 anos, em 14 de outubro, depois de construir uma trajetória de mais de três décadas na televisão acreana. Durante aproximadamente 30 anos, esteve à frente do Jornal do Acre 2ª Edição, tornando-se uma presença familiar na vida de milhares de pessoas. Em 2019, representou o Acre na bancada do Jornal Nacional, um dos momentos marcantes de sua carreira.

Mas, para além dos feitos profissionais, sua partida nos convida a refletir sobre uma qualidade que deveria acompanhar todo jornalista: a humildade.

A televisão lhe deu visibilidade. O tempo lhe deu experiência. Mas é a dimensão humana de sua trajetória que nos leva a pensar sobre o verdadeiro significado de um legado.

No jornalismo, lidamos diariamente com a palavra, a imagem e a responsabilidade de contar histórias. Damos voz a quem muitas vezes não é ouvido e levamos informação a quem precisa compreender o mundo ao seu redor. Entretanto, quando esse poder não é acompanhado de consciência, pode alimentar a vaidade e fazer com que o profissional se esqueça de que nunca deve ser maior do que a notícia.

A experiência não precisa produzir arrogância. O reconhecimento não exige distanciamento. E a autoridade profissional não precisa ser exercida com humilhação.

Há uma diferença enorme entre ser conhecido e ser respeitado. A exposição pode tornar alguém conhecido; é a maneira de agir que ajuda a construir o respeito.

É por isso que a humildade não pode ser apenas uma palavra bonita em discursos de despedida. Precisa ser uma prática cotidiana: ensinar sem diminuir quem está começando, reconhecer o mérito dos colegas, aceitar correções e compreender que o sucesso de outro jornalista não representa uma ameaça à própria trajetória.

É fácil publicar homenagens quando alguém morre. Difícil, muitas vezes, é reconhecer o valor de um colega enquanto ele está vivo.

Difícil é elogiar sem inveja, discordar sem desrespeitar e competir sem desejar o fracasso alheio. Difícil é entender que ninguém precisa ser colocado na sombra para que outra pessoa brilhe.

O jornalismo já enfrenta desafios suficientes: desinformação, precarização do trabalho, pressões econômicas e ataques à imprensa. Nesse cenário, as disputas de ego e as vaidades internas apenas enfraquecem uma profissão essencial à democracia.

Podemos pensar diferente, trabalhar em veículos concorrentes e defender posições distintas sem abandonar o respeito. Afinal, antes de qualquer cargo, audiência ou assinatura, somos pessoas.

A trajetória de Ayres também nos faz pensar na importância de reconhecer aqueles que abriram caminhos. Nenhuma geração constrói a imprensa sozinha. Os profissionais experientes têm conhecimentos a transmitir, enquanto os mais jovens chegam com novas linguagens e perspectivas. O jornalismo cresce quando essas experiências se encontram, não quando uma geração tenta diminuir a outra.

O escritor e jornalista colombiano Gabriel García Márquez popularizou a expressão “a melhor profissão do mundo” ao se referir ao jornalismo. Mais do que uma frase de efeito, essa visão nos lembra o privilégio e a responsabilidade de conhecer histórias, compreender realidades e aproximar pessoas por meio da informação.

Mas nenhuma profissão se torna grandiosa apenas pelo nome que carrega. Sua grandeza depende da maneira como é exercida.

Em tempos de exposição permanente, construir uma imagem pública tornou-se relativamente fácil. Construir uma reputação sólida, porém, continua sendo um trabalho de anos. Ela nasce de pequenas escolhas: apurar antes de publicar, corrigir um erro, respeitar uma fonte e reconhecer a dignidade de quem está diante de nós.

O jornalista não precisa ser o centro de todas as histórias. Precisa compreender por que está contando cada uma delas.

Durante décadas, Ayres fez parte da rotina dos acreanos. Sua voz entrou nas casas, acompanhou famílias e levou notícias a gerações de telespectadores. Essa familiaridade não se constrói de um dia para o outro. É resultado de presença, continuidade e confiança.

Por isso, sua memória merece ser preservada para além da nostalgia da bancada. Ela deve nos levar a refletir sobre o que deixamos nas pessoas e sobre a maneira como exercemos nossa profissão.

Ser humilde não significa ser fraco, abrir mão das próprias convicções ou esconder as próprias conquistas. Significa reconhecer os próprios limites, respeitar o espaço do outro e não precisar diminuir ninguém para demonstrar o próprio valor.

Talvez essa seja uma das reflexões mais necessárias diante da morte de um colega: quantas vezes deixamos de reconhecer alguém enquanto ainda havia tempo? Quantas vezes tratamos com indiferença quem estava começando, esquecendo que também fomos iniciantes? Quantas lições só percebemos quando já não podemos mais ouvi-las de quem partiu?

Essas perguntas não são acusações. São convites à consciência.

No Acre, preservar a memória dos profissionais da comunicação também significa preservar parte da história do estado. Jornalistas registram transformações, questionam poderes, denunciam injustiças e ajudam a sociedade a compreender o tempo em que vive. Essa missão exige técnica, coragem, independência e, acima de tudo, humanidade.

A morte de Ayres Rocha não deve encerrar a reflexão sobre sua trajetória. Ao contrário, deve nos lembrar de que o legado só ganha sentido quando se transforma em atitudes.

Que os mais jovens encontrem inspiração na experiência de quem veio antes. Que os mais experientes compreendam que ensinar também é uma forma de permanecer. Que as redações sejam espaços de aprendizado e debate, não de humilhação. E que o respeito entre colegas não dependa da conveniência, da audiência ou do tamanho do nome que cada um carrega.

A emoção passa. O aplauso silencia. A rotina retorna.

O caráter, porém, é aquilo que permanece quando já não estamos presentes para defender a própria imagem.

Talvez a homenagem mais sincera que o jornalismo acreano possa prestar a Ayres Rocha não seja apenas repetir que ele fez história, mas permitir que sua trajetória nos ajude a trabalhar melhor, a reconhecer nossos colegas e a compreender que nenhuma conquista profissional vale o preço de perder a humildade.

Porque, quando as luzes se apagarem e os aplausos já não puderem ser ouvidos, não será o tamanho do nosso nome que falará por nós.

Será a marca que deixamos na vida das pessoas.

Ayres se foi. A saudade fica. E a lição que sua trajetória nos oferece precisa continuar entre nós.

Saudades, professor!