Certo dia, este escriba que vos fala por meio das palavras observava o movimento de uma loja de departamentos em um shopping center. Entre consumidores apressados, vitrines iluminadas e promoções tentadoras, uma cena chamou minha atenção.
Uma jovem caminhava pelos corredores segurando um celular de última geração, um dos aparelhos mais caros do mercado. Não bastava possuí-lo. Era preciso exibi-lo. O aparelho permanecia estrategicamente posicionado para que todos pudessem enxergar as famosas câmeras e, principalmente, o símbolo da “maçã” estampado na traseira.
O olhar carregava uma expressão de superioridade, como se aquele objeto fosse uma credencial capaz de colocá-la alguns degraus acima dos demais mortais. Aquela cena me fez refletir sobre uma doença silenciosa que parece contaminar a sociedade: a substituição do ser pelo ter.
Vivemos em uma época em que o valor de uma pessoa é frequentemente medido pelo carro que dirige, pela roupa que veste, pelo restaurante que frequenta ou pelo celular que carrega no bolso. A essência foi trocada pela aparência. O caráter perdeu espaço para a vitrine. O conteúdo cedeu lugar à embalagem.
As redes sociais potencializaram esse fenômeno de maneira assustadora. Hoje, milhões de pessoas vivem em busca de uma existência “instagramável”. Não importa se a felicidade é verdadeira; importa que pareça verdadeira. Não importa se o relacionamento está falido; importa o registro do casal sorrindo para os seguidores.
Criou-se uma geração que documenta mais a vida do que a vive.
Os seguidores se transformaram em moeda social. Os likes viraram termômetros do ego. Quanto maior o número, maior a sensação de relevância. Quanto menor o engajamento, maior a angústia. Muitos acordam e dormem monitorando curtidas, comentários e visualizações como se a própria autoestima estivesse ligada a um algoritmo.
E talvez esteja.
A sociedade do espetáculo, prevista por pensadores décadas atrás, atingiu um nível que poucos imaginavam. O indivíduo já não precisa ser admirável; basta parecer admirável. Já não precisa ser rico; basta aparentar riqueza. Já não precisa ser feliz; basta publicar felicidade.
Nesse cenário, a ostentação deixou de ser exceção para se tornar regra. Pessoas se endividam para adquirir produtos de que não precisam, apenas para impressionar indivíduos que sequer conhecem. Compram status em prestações enquanto acumulam frustrações à vista.
O paradoxo é cruel. Quanto mais se busca aprovação externa, mais vazia se torna a satisfação interna. Afinal, nenhum celular, por mais caro que seja, preenche a falta de identidade. Nenhuma marca substitui a personalidade. Nenhuma curtida corrige inseguranças. Nenhum seguidor elimina a solidão.
O mercado entendeu isso perfeitamente. Não vende apenas produtos; vende pertencimento. Não comercializa apenas tecnologia; vende a sensação de sucesso. Não entrega apenas objetos; entrega símbolos de status. E milhões de consumidores entram nesse jogo acreditando que estão comprando felicidade quando, na verdade, estão alugando uma imagem.
A consequência é uma sociedade cada vez mais ansiosa, competitiva e superficial. Uma sociedade em que muitos sabem o preço de tudo, mas desconhecem o valor das coisas. Em que se investe mais tempo construindo uma reputação virtual do que cultivando virtudes reais.
Talvez o maior desafio do nosso tempo seja justamente este: reaprender a ser em um mundo obcecado pelo ter.
Porque, no fim das contas, o celular envelhece, a moda muda, o algoritmo esquece, os seguidores desaparecem e as curtidas se tornam números sem importância. O que permanece é aquilo que nenhuma marca consegue vender: caráter, conhecimento, humildade, generosidade e autenticidade.
São essas qualidades que definem quem somos quando as luzes da vitrine se apagam e a tela do celular se desliga. E essa é uma verdade que nenhum filtro consegue esconder.