Rio Branco, AC, 28 de outubro de 2026 15:56
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Entre o amor líquido de Bauman, o medo da chuva de Raul e as ironias de Jabor: quem ainda tem coragem de amar sem fazer contas?

Uma dica: leiam até o final!

Nunca foi tão fácil encontrar alguém. E talvez nunca tenha sido tão difícil encontrar alguém que queira ficar quando o encanto acaba, o dinheiro falta, a beleza muda e a vida deixa de oferecer motivos para fotografias bonitas.

Vivemos a era da conexão instantânea e da intimidade adiada. Há mensagens durante a madrugada, declarações precipitadas, corpos que se encontram e sentimentos que sequer têm tempo de nascer. Nunca tivemos tantas possibilidades de aproximação. Ainda assim, cresce a impressão de que muita gente sabe conquistar, mas pouca gente aprendeu a permanecer.

O amor, para alguns, virou uma experiência de consumo. Experimenta-se, avalia-se, compara-se e, diante da primeira frustração, procura-se outro modelo. O problema já não é apenas encontrar alguém interessante, mas suportar a descoberta de que o outro é humano: tem defeitos, inseguranças, dias ruins e necessidades que nem sempre coincidem com as nossas.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman identificou parte dessa contradição em Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Em sua análise da modernidade, os vínculos tornam-se frágeis quando o desejo de proximidade entra em conflito com o medo das responsabilidades que acompanham uma relação. Queremos o conforto da intimidade, mas hesitamos diante das renúncias, dos conflitos e da vulnerabilidade que ela exige.

Queremos alguém ao nosso lado, desde que essa pessoa não nos peça demais. Queremos exclusividade sem abrir mão das alternativas. Queremos ser amados, mas nem sempre estamos dispostos a assumir o trabalho de amar.

É uma espécie de contrato silencioso: enquanto você me faz bem, eu fico. Quando você passa a exigir presença, paciência ou responsabilidade, começo a considerar minhas opções.

O amor não desapareceu. Em muitos casos, foi colocado à prova por uma sociedade que transformou a possibilidade de substituir alguém numa tentação permanente.

Décadas atrás, o namoro tinha outro ritmo. Nos anos 1960, 1970 e 1980, muitos encontros aconteciam nas praças, nos bailes, nos cinemas e nas conversas demoradas diante de casa. Uma carta podia levar dias para chegar. Uma ligação era aguardada. O encontro marcado carregava uma expectativa que não dependia de notificações nem de confirmações a cada cinco minutos.

Conhecer alguém exigia convivência. Havia tempo para observar gestos, perceber contradições e descobrir se a pessoa por trás do encantamento inicial realmente merecia confiança.

Mas não convém transformar o passado em paraíso. Muitas mulheres permaneceram em relações infelizes por dependência financeira, pressão familiar ou ausência de alternativas. Havia machismo, traições silenciadas e casamentos sustentados pela obrigação. Nem toda permanência era amor; às vezes, era apenas falta de liberdade.

A diferença é que, hoje, diante de qualquer frustração, a possibilidade de substituição parece estar sempre à mão. A tecnologia ampliou os encontros, mas também alimentou a sensação de que a próxima pessoa pode ser melhor, mais bonita, mais interessante e menos trabalhosa.

E assim muita gente passa a vida procurando a pessoa certa sem se perguntar se está preparada para construir alguma coisa com alguém real.

O resultado é uma solidão curiosa: pessoas cercadas de contatos, acompanhadas nas festas, desejadas nas redes sociais e, ainda assim, sem alguém com quem possam dividir as angústias que não cabem numa legenda.

Há quem compartilhe a cama sem compartilhar os medos. Há quem conheça o corpo de alguém e permaneça estrangeiro à sua história.

O sexo não é o problema. O desejo não precisa ser disfarçado de romance, e uma relação casual pode ser vivida com honestidade e respeito. O drama começa quando um dos lados acredita estar construindo um vínculo, enquanto o outro apenas desfruta das vantagens de uma companhia temporária.

É nesse território que o interesse se disfarça de sentimento.

Nem toda aproximação nasce da admiração pelo que alguém é. Há quem procure dinheiro, status, prestígio, segurança, influência ou simplesmente a comodidade de não estar sozinho. O outro deixa de ser uma pessoa e passa a representar uma oportunidade.

O interesse, entretanto, raramente se apresenta com seu verdadeiro nome. Prefere o perfume da sedução, as palavras certas e as promessas que fazem o coração acreditar antes que a razão consiga perguntar.

O problema não é reconhecer que as relações envolvem interesses e necessidades. É esconder as próprias intenções, alimentar expectativas que não se pretende cumprir e usar o sentimento alheio como instrumento de satisfação.

O tempo, cedo ou tarde, costuma expor essas diferenças. O discurso encanta; a conduta revela. As promessas seduzem; a coerência confirma. E há um momento decisivo em toda relação: aquele em que uma pessoa deixa de oferecer vantagens e precisa descobrir se ainda é amada por aquilo que é.

O jornalista e escritor Arnaldo Jabor fez das contradições humanas uma matéria recorrente de suas crônicas. Com ironia e provocação, abordou o amor, o desejo, o sexo, o egoísmo e as ilusões que construímos para tornar nossas escolhas mais suportáveis. Seu olhar sobre os relacionamentos não se limitava ao romantismo: interessava-lhe também aquilo que os seres humanos escondem de si mesmos.

Essa perspectiva ajuda a formular uma pergunta incômoda: quantas vezes chamamos de amor aquilo que, no fundo, é medo da solidão, necessidade de aprovação ou conveniência?

Uma pessoa pode desejar seu corpo sem desejar sua companhia. Pode admirar seu sucesso sem suportar suas dificuldades. Pode gostar da segurança que você proporciona sem ter disposição para oferecer a mesma segurança quando a vida se inverte.

E talvez uma das experiências mais dolorosas seja perceber que você estava investindo numa história enquanto o outro apenas aproveitava as circunstâncias.

Amor não é aplicação financeira. Não existe garantia de retorno, contrato capaz de produzir sentimento ou promessa que transforme conveniência em compromisso. Mas existe honestidade. Existe reciprocidade. Existe a possibilidade de duas pessoas reconhecerem suas limitações e, mesmo assim, escolherem construir alguma coisa que não dependa exclusivamente da satisfação imediata.

É aqui que Raul Seixas entra nessa conversa com uma força particular.

Em Medo da Chuva, lançada em 1974, Raul Seixas e Paulo Coelho abordaram uma das grandes tensões do amor: a fronteira entre compromisso e aprisionamento. A canção questiona a ideia de que uma promessa feita no passado deva condenar alguém a permanecer numa relação, mesmo quando essa permanência entra em conflito com sua liberdade.

A chuva que retorna à terra sugere movimento e renovação. As pedras, imóveis no mesmo lugar, evocam a imagem de quem permanece preso enquanto a vida continua acontecendo.

A pergunta que emerge dessa inquietação é tão atual quanto desconfortável: estamos ao lado de alguém porque escolhemos amar ou porque temos medo de descobrir quem somos quando a relação termina?

Ficar nem sempre é prova de amor. Partir também não é necessariamente fracassar. Há relações que precisam terminar para que a dignidade seja preservada. Nenhum compromisso deveria exigir que alguém aceitasse humilhação, violência ou a anulação da própria identidade.

O amor que vale a pena não é uma cela com decoração romântica. É um vínculo no qual duas pessoas podem permanecer inteiras.

Raul também explorou as tensões entre desejo e posse em A Maçã. Em Tente Outra Vez, cantou a força de recomeçar. Já em Ouro de Tolo, questionou a ilusão de que as conquistas materiais sejam suficientes para produzir plenitude. Sua obra oferece diferentes caminhos para pensar a liberdade, as expectativas e as contradições de quem tenta descobrir o que realmente importa.

A música brasileira conhece bem essa matéria. Em Detalhes, Roberto Carlos deu voz à persistência da memória amorosa. Em Como É Grande o Meu Amor por Você, celebrou a entrega. Em Evidências, eternizada por Chitãozinho & Xororó, o orgulho entra em conflito com um sentimento que insiste em sobreviver.

Canções tão diferentes atravessam gerações porque falam de algo que nenhuma tecnologia conseguiu resolver: a dificuldade de conciliar desejo, liberdade, vulnerabilidade e compromisso.

Encontrar alguém disposto a construir uma vida a dois, com honestidade e reciprocidade, tornou-se quase como ganhar na loteria. Não porque o amor seja um prêmio reservado a poucos, mas porque a combinação entre atração, confiança, admiração, compatibilidade e caráter não se encontra em qualquer esquina.

E não basta encontrar. É preciso cuidar.

Uma relação verdadeira não se sustenta apenas na euforia do começo. Ela precisa atravessar a rotina, as contas, o cansaço, as mudanças de planos e os dias em que ninguém tem uma frase bonita para dizer. Precisa sobreviver ao momento em que o encanto deixa de fazer todo o trabalho e a convivência revela aquilo que a paixão, sozinha, não consegue esconder.

É nessa hora que se distingue o amor da conveniência.

O amor não é posse. É escolha renovada. Não significa vigiar alguém para impedir que parta, mas construir uma relação na qual permanecer faça sentido para os dois. Não é concordar com tudo, mas discordar sem destruir. Não é prometer uma felicidade sem interrupções, mas não transformar cada dificuldade numa oportunidade de humilhar ou abandonar.

Talvez o privilégio não seja encontrar alguém perfeito. Pessoas perfeitas existem sobretudo nas fantasias que alimentamos antes de conhecer alguém de verdade. O privilégio é encontrar uma pessoa real, com defeitos e contradições, que não transforme o afeto numa moeda de troca.

Alguém que não permaneça por medo, dependência ou interesse, mas porque reconhece valor na história que os dois estão construindo.

Bauman nos ajuda a compreender a fragilidade dos vínculos contemporâneos. Raul Seixas nos lembra de que amar não deveria significar viver aprisionado. E as provocações de Arnaldo Jabor nos convidam a olhar para as ambiguidades que muitas vezes preferimos esconder sob o verniz do romantismo.

Entre a liberdade e o compromisso, existe uma escolha difícil: amar sem possuir, permanecer sem se anular e reconhecer que o outro não é uma mercadoria destinada a satisfazer todas as nossas expectativas.

Porque o interesse pode aproximar duas pessoas. O desejo pode colocá-las na mesma cama. A conveniência pode mantê-las juntas durante anos. Mas somente a reciprocidade, acompanhada de respeito e honestidade, permite que duas pessoas construam algo que não desmorone quando as vantagens desaparecem.

E, quando a beleza deixa de surpreender, o dinheiro já não impressiona e o mundo deixa de aplaudir, resta uma pergunta que nenhuma fotografia bonita consegue responder:

Quem continua ao seu lado quando você já não tem nada a oferecer além de si mesmo?

Se você encontrou essa pessoa, cuide bem dela. Não como quem teme perder um prêmio, mas como quem reconhece a raridade de um encontro em que ninguém precisa fingir, negociar a própria dignidade ou representar um personagem para continuar sendo amado.

Num mundo em que tantos querem ser desejados, admirados e servidos, encontrar alguém disposto a compreender, respeitar e construir é uma raridade.

E talvez seja esse o verdadeiro sentido de ganhar na “loteria do amor”: descobrir que, no meio de tantos interesses, ainda existe alguém que não precisa de uma vantagem para escolher você.