Rio Branco, AC, 28 de agosto de 2026 14:31
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Fé não pode virar palanque: quando a Marcha para Jesus entra no jogo eleitoral

Em pleno ano eleitoral, uma manifestação do primeiro suplente do senador e candidato ao Governo do Acre Alan Rick chama atenção não apenas pelo conteúdo, mas principalmente pelo contexto político em que foi feita.

Gemil Júnior veio a público afirmar que Cruzeiro do Sul ficará sem a Marcha para Jesus em 2026 porque o Governo do Estado teria, por “perseguição” e “questões políticas”, retirado o apoio ao evento. É uma acusação grave. E justamente por ser grave deveria estar acompanhada de provas igualmente robustas.

Não basta pronunciar a palavra “perseguição” diante de uma comunidade religiosa e esperar que a indignação faça o restante do trabalho.

Existe um elemento político que não pode ser escondido do debate: Gemil Júnior é primeiro suplente de Alan Rick. Caso Alan seja eleito governador, Gemil tem interesse político direto na consequência dessa vitória, pois poderá assumir uma cadeira no Senado da República. Portanto, qualquer manifestação dessa natureza, em plena campanha eleitoral, precisa ser analisada também à luz dessa circunstância.

É legítimo cobrar o Governo do Estado. É legítimo questionar por que não houve apoio financeiro. É legítimo defender que uma manifestação tradicional e importante para milhares de cristãos receba suporte público dentro da legalidade. O que não parece razoável é saltar desses questionamentos para uma acusação de perseguição política sem apresentar elementos concretos que sustentem essa conclusão.

E há um fato que torna a narrativa ainda mais problemática: o Governo do Acre apresentou uma versão diferente. Segundo nota divulgada pela gestão, o edital que permitiria o apoio estadual já havia sido cancelado em 23 de junho, em razão de questões legais e administrativas relacionadas ao período eleitoral, falta de prazo para conclusão do chamamento e apontamentos de órgãos de controle. Conforme a versão oficial, a demanda específica de Cruzeiro do Sul somente chegou posteriormente.

Se Gemil possui documentos capazes de provar que houve perseguição política, que os apresente. Se possui evidências de que Cruzeiro do Sul foi deliberadamente prejudicado por sua posição eleitoral, que as torne públicas. Caso contrário, o que resta é uma acusação política lançada sobre um assunto extremamente sensível: a fé de milhares de pessoas.

Também é preciso fazer uma distinção importante. O apoio do poder público tem peso significativo na realização de um evento da dimensão da Marcha para Jesus. Estrutura, segurança, logística, trânsito, organização e eventualmente recursos financeiros podem facilitar enormemente uma mobilização que reúne milhares de pessoas. A edição de 2025 em Cruzeiro do Sul, por exemplo, contou com apoio do Estado e da Prefeitura.

Mas apoio público não pode ser tratado como se fosse condição absoluta para que cristãos manifestem sua fé. As igrejas, associações e entidades religiosas possuem autonomia para se organizar, buscar parceiros e construir alternativas dentro da legislação. O próprio Estado deve ser parceiro quando houver possibilidade jurídica e interesse público, mas a fé cristã não pertence ao governo de plantão.

A Marcha para Jesus é maior que Alan Rick, maior que Gemil Júnior, maior que Mailza Assis e maior que qualquer disputa pelo Governo do Acre.

Transformar a ausência de financiamento público em combustível para uma narrativa de perseguição, sem demonstrar concretamente que essa perseguição ocorreu, corre o risco de reduzir um movimento religioso histórico a instrumento de confronto eleitoral.

E esse é o ponto mais preocupante.

Quando religião e política se encontram, responsabilidade deveria ser a primeira regra. A fé de milhares de evangélicos do Juruá não pode ser utilizada para fabricar antagonismos eleitorais, muito menos para colocar cristãos contra determinado governo com base em acusações que ainda precisam ser demonstradas.

Se existe perseguição, apresentem-se as provas.

Se existe ilegalidade, denuncie-se aos órgãos competentes.

Se houve discriminação contra Cruzeiro do Sul, demonstrem-se os atos administrativos que comprovem isso.

Mas, se o que existe é uma disputa administrativa sobre financiamento público em pleno período eleitoral, então é preciso ter responsabilidade antes de transformar o episódio em uma guerra entre governo e cristãos.

A comunidade evangélica merece respeito demais para servir de massa de manobra de qualquer lado político.

A Marcha para Jesus deve continuar sendo aquilo que seu próprio nome anuncia: uma manifestação de fé em Jesus. Não uma marcha rumo ao Senado.

Willamis França – Jornalista do Notícias da hora