A expectativa em torno da composição do futuro governo de Mailza Assis movimenta os bastidores da política acreana. O anúncio dos nomes que estarão à frente das secretarias e dos principais órgãos estaduais desperta interesses, alimenta articulações e mobiliza diferentes grupos políticos. Para alguns, a expectativa é permanecer nos espaços que já ocupam, especialmente aqueles que participaram ativamente do projeto eleitoral. Para outros, que aderiram à candidatura em diferentes etapas da caminhada, chegou o momento de reivindicar reconhecimento e participação na futura estrutura de poder.
Entretanto, reduzir a formação do novo governo à distribuição de cargos entre aliados seria ignorar a dimensão política e administrativa da decisão que está diante da governadora eleita.
Com 272.635 votos, correspondentes a 66,21% dos votos válidos, Mailza recebeu das urnas uma expressiva legitimidade política. Essa votação representa um importante capital político, mas também estabelece uma expectativa proporcional de desempenho. O eleitor não lhe concedeu apenas um mandato: depositou confiança em sua capacidade de liderar o Estado, coordenar políticas públicas e produzir mudanças concretas na vida da população.
É nesse contexto que a escolha da equipe ganha dimensão estratégica. Mais do que preencher organogramas ou acomodar forças políticas, Mailza precisará construir uma estrutura de governo capaz de assegurar governabilidade, estabilidade institucional e eficiência administrativa.
É importante reconhecer que Mailza não chega ao comando do Executivo estadual sem experiência na administração pública. Sua trajetória inclui passagens por funções estratégicas, entre as quais destaco sua atuação à frente da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos (SEASDH). Naquela experiência, contou com uma equipe técnica comprometida com o planejamento, a organização e a execução das políticas públicas sob responsabilidade da pasta.
Seu antecessor, além de aliado e apoiador político, deixa como legado uma experiência administrativa marcada por instabilidades e frequentes alterações no primeiro escalão. A rotatividade de secretários e dirigentes, em determinados momentos, comprometeu a continuidade de ações, dificultou a consolidação de projetos e produziu insegurança na estrutura governamental. Em um ambiente assim, a administração corre o risco de concentrar energia na reorganização interna, quando deveria estar direcionada à execução das políticas públicas.
A nova gestão terá a oportunidade — e a responsabilidade — de romper com essa lógica. Estabilidade administrativa não significa imobilismo, tampouco blindagem de gestores. Significa estabelecer critérios claros de desempenho, garantir continuidade às políticas que apresentam resultados e promover mudanças quando necessárias, com fundamento técnico e responsabilidade política.
Governar exige articulação política. Nenhuma administração estadual se sustenta sem diálogo com partidos, lideranças, parlamentares, prefeitos e diferentes setores da sociedade. A construção de uma base de sustentação política é condição importante para a aprovação de agendas e para a implementação de projetos estratégicos.
Mas governabilidade não pode ser confundida com distribuição indiscriminada de cargos. A presença de aliados na administração precisa estar associada à capacidade de contribuir efetivamente para os objetivos do governo. O compromisso político pode abrir portas, mas é a competência que deve sustentar a permanência nos postos de comando.
Mailza precisará selecionar gestores que reúnam capacidade técnica, liderança, visão estratégica, experiência administrativa e habilidade para trabalhar com equipes multidisciplinares. Também será fundamental compreender que a máquina pública não funciona apenas por meio dos cargos de confiança. Os servidores efetivos detêm conhecimento institucional, experiência acumulada e memória administrativa que precisam ser valorizados e integrados ao projeto de governo.
Outro aspecto relevante será a capacidade de estabelecer prioridades, metas e mecanismos de acompanhamento. Uma equipe eficiente não é aquela que apenas anuncia ações ou ocupa espaços na estrutura administrativa, mas aquela que consegue transformar planejamento em execução, orçamento em políticas públicas e decisões em resultados concretos e mensuráveis para a sociedade.
Há, ainda, uma dimensão simbólica e política que merece atenção: a representatividade feminina.
Como primeira mulher eleita governadora do Acre, tendo também uma mulher na vice-governadoria, Mailza ocupa uma posição histórica. Sua chegada ao comando do Executivo estadual representa uma oportunidade de ampliar a presença feminina nos espaços de poder e decisão.
A expectativa, portanto, é saber se essa conquista também se refletirá na composição de seu governo. Haverá maior participação de mulheres no primeiro escalão, nas presidências de órgãos e nos cargos estratégicos? A governadora fará de sua gestão uma referência de representatividade e valorização da liderança feminina?
Mais do que uma questão de composição numérica, ampliar a presença das mulheres nos espaços de decisão significa reconhecer competências, diversificar perspectivas e fortalecer a representatividade na administração pública. Mailza tem a oportunidade de transformar o simbolismo de sua eleição em uma marca concreta de gestão.
As escolhas dos próximos dias começarão a revelar as prioridades, as alianças e o modelo de administração que a governadora pretende implementar. Cada nome anunciado representará mais do que uma decisão individual: será também um indicativo da concepção de governo que pretende construir.
Mailza não precisa apenas de aliados leais, nem de técnicos com bons currículos. Precisa de gestores que saibam dialogar com a política sem abrir mão da responsabilidade administrativa; que tenham capacidade de liderança, compromisso com o interesse público e disposição para serem avaliados pelos resultados que produzem.
A eleição lhe conferiu legitimidade. Sua experiência administrativa lhe oferece referências para governar. A composição da equipe demonstrará suas prioridades. E a capacidade de transformar decisões em entregas será o verdadeiro teste de sua liderança.
Afinal, a população não espera apenas novos nomes no Diário Oficial. Espera serviços públicos melhores, políticas públicas efetivas e um governo capaz de fazer a diferença na vida dos acreanos.
Marilene da Silva Lima
Cientista Política pela Universidade Federal do Acre (UFAC)
Especialista em Gestão Pública
Servidora pública efetiva do Estado do Acre desde 2006, no cargo de Gestora de Políticas Públicas.
Diretora de Comunicação e Marketing da Federação Nacional das Carreiras de Gestão e de Políticas Públicas (FENAGESP)





