Rio Branco, AC, 20 de outubro de 2026 12:37

Fumaça

Nos finais de semana, ia para o sítio da família, com meu irmão e meus pais.

Certo dia de inverno, com uns sete anos, deitei sobre uma pedra grande que ficava na estrada interna do sítio, a cerca de cinquenta metros da casa. Tinha sido moldada ali por carroças e carruagens, talvez por centenas de anos.

A pedra era grande o suficiente para caber meu corpo. Pedra comida pelo tempo, encaixada na estrada. Me encaixei na pedra, com a alegria do sol esquentando o corpo e pesando minhas pálpebras.

Os olhos só abriam com esforço. Deixei fechados. Abria um pouco, às vezes, para ver as copas das árvores, o eucalipto centenário onde meu pai prometia fazer uma casa na árvore.

Só aproveitava o sol, o cheiro da grama, das árvores e de mel. Não sei por que o cheiro de mel. Ouvia os cães. Não seus latidos, mas seus movimentos. Não pensava em nada porque não precisava.

Entendi, adulto, que não precisava abrir os olhos ao sol, porque não tinha que me preocupar com comida. Lembro, desde sempre, de meus pais muito preocupados com a fome. E da minha madura ingenuidade de me perguntar: por que tem tanta gente passando fome? Por que tem uma pessoa que seja passando fome?

Eu não sabia, mas, naquele mesmo ano, um estudo do governo contou 32 milhões de brasileiros sem dinheiro para comprar os alimentos mais básicos.

Nessa época, meus colegas e eu recolhíamos brinquedos para as crianças pobres, sem saber que elas não conseguiriam pensar nisso enquanto tivessem fome. Criança com fome não deita ao sol de olhos fechados, fica alerta para saber se aparece comida.

O pão nosso de cada dia não era preocupação para mim. Mas, na oração da criança com fome, ajoelhada à beira da cama, é pedido.

Minha mãe cuidava do fogão a lenha. Deitado na pedra, eu não via nem a fumaça da chaminé. Almoçávamos todos à mesa ao mesmo tempo. Mas, em casa onde a comida falta, a mãe come depois dos filhos, se sobrar algo para ela.

Se uma nuvem cobrisse o sol, eu sentiria frio na hora. Nuvem é algo que ninguém pode controlar; a fome é decisão da gente. Quando a fome volta, chega primeiro na casa das mulheres negras, depois na das demais pessoas pobres.

Naquele dia, fechei os olhos porque minha mãe cuidava de mim. Hoje eu deitaria na pedra, me amarraria a ela se fosse preciso. Porque o que levou séculos para se formar, com carroças e depois carros passando, pode ser arrancado numa tarde. Por isso, domingo, com sol ou chuva, eu vou.

Sem lenço, com documento. E de olhos bem abertos.