O tremor de magnitude 3,7 registrado recentemente no Tocantins reacendeu o debate sobre a ocorrência de abalos sísmicos no Brasil. Embora o país esteja distante das áreas de maior atividade tectônica do planeta, o fenômeno não é estranho ao Acre — e os registros científicos mostram que o interior do Estado está entre as regiões brasileiras onde terremotos são observados com frequência.
Um levantamento produzido por pesquisadores da Universidade Federal do Acre (UFAC) aponta que o Estado possui histórico significativo de atividade sísmica. O estudo identificou cerca de 40 terremotos no Acre desde 2007, sendo que somente em 2015 foram registradas 17 ocorrências. Naquele ano, 13 dos eventos estavam relacionados à região de Tarauacá, no interior acreano.
O município se tornou uma das principais referências quando o assunto é atividade sísmica na Amazônia Ocidental. Em janeiro de 2019, um tremor de magnitude 6,8 foi registrado na região de Tarauacá pelo Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB). O evento ocorreu a aproximadamente 575 quilômetros de profundidade e teve o epicentro em uma área remota, a cerca de 87 quilômetros da cidade.

Poucos meses antes, em novembro de 2015, uma sequência de fortes terremotos chamou atenção para o Acre. Em 26 de novembro daquele ano, um sismo de magnitude 6,7 foi registrado a cerca de 125 quilômetros ao sul-sudoeste de Tarauacá, a mais de 600 quilômetros de profundidade, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).
O episódio ocorreu dois dias depois de um terremoto de magnitude 7,6 registrado na região de fronteira entre Peru e Brasil, que também foi sentido em cidades acreanas.
Em 2024, outro grande evento voltou a colocar Tarauacá no centro dos registros sismológicos. Na noite de 20 de janeiro, a Rede Sismográfica Brasileira detectou um terremoto de magnitude 6,6, inicialmente associado à região de Tarauacá. O tremor ocorreu a mais de 600 quilômetros de profundidade e não provocou danos. O Serviço Geológico do Brasil explicou que a profundidade ajudou a dissipar parte significativa da energia antes que ela atingisse a superfície.
A Agência Brasil destacou que o abalo foi sentido no Acre e no Amazonas e chegou a ser classificado como o maior tremor registrado na Região Norte. Posteriormente, as coordenadas indicaram uma área isolada de Ipixuna, no Amazonas, embora o evento tenha sido inicialmente localizado próximo a Tarauacá.
Acre está próximo de uma região de intensa atividade tectônica
A explicação para a recorrência de sismos no Acre está, em grande parte, na posição geológica do Estado. O Acre fica próximo à região dos Andes e à área de interação entre a placa de Nazca e a placa Sul-Americana. Os terremotos profundos registrados na região podem ocorrer em razão da dinâmica dessas placas, mesmo estando o Brasil localizado no interior da placa Sul-Americana.
Um estudo desenvolvido por pesquisadores da UFAC ressalta justamente a localização do Acre na periferia dos Andes como um dos fatores que ajudam a explicar a ocorrência de terremotos no território estadual. A pesquisa aponta ainda Tarauacá como a localidade acreana com maior concentração de registros.
Em 2020, moradores de Cruzeiro do Sul também relataram ter sentido um forte tremor provocado por um terremoto ocorrido no Peru. O evento levou moradores a questionarem nas redes sociais o que havia provocado a movimentação.
E os registros não se limitam a Tarauacá e Cruzeiro do Sul. A pesquisa da UFAC mostra que a atividade sísmica se espalha pelo território acreano e está relacionada à dinâmica geológica da região.
O fato de o Acre registrar terremotos de magnitude elevada não significa que o Estado esteja sujeito aos mesmos efeitos observados em países como Japão, Chile ou Turquia. Isso ocorre porque muitos dos eventos registrados na região amazônica são muito profundos. Quanto maior a profundidade, maior tende a ser a dissipação da energia antes de ela chegar à superfície.
O Serviço Geológico do Brasil explica que terremotos de baixa intensidade podem ser chamados de abalos sísmicos ou tremores de terra e que sua origem está relacionada à liberação súbita de energia acumulada nas rochas.
Por isso, um terremoto de magnitude elevada pode ser detectado pelos equipamentos de monitoramento e, ainda assim, provocar poucos efeitos na superfície.
Outro ponto importante é que a existência de atividade sísmica no Acre não permite prever quando ocorrerá um novo terremoto.
Os especialistas são categóricos ao diferenciar monitoramento de previsão. As redes sismográficas conseguem identificar um tremor depois que ele ocorre e, em determinadas situações, emitir alertas rapidamente para áreas que ainda receberão as ondas sísmicas. Mas não existe método científico capaz de indicar previamente, com precisão, dia, horário, local e magnitude de um terremoto.
No Acre, porém, uma coisa não é novidade: a terra já tremeu — e continua sendo monitorada. Os registros científicos acumulados ao longo das últimas décadas mostram que, especialmente no interior do Estado, a atividade sísmica faz parte da realidade geológica da região.





