Pianista e compositor acreano misturou bossa nova, jazz e ritmos latinos em uma trajetória que o consagrou como um dos grandes nomes da música brasileira
O som de João Donato atravessou fronteiras, estilos e gerações, mas suas primeiras notas nasceram em Rio Branco. Nesta segunda-feira, 17, o Acre lembra os 92 anos do nascimento de um dos artistas mais importantes da música brasileira. Donato nasceu na capital acreana em 17 de agosto de 1934 e morreu no Rio de Janeiro, em 17 de julho de 2023, aos 88 anos.
Pianista, acordeonista, compositor, arranjador e cantor, João Donato construiu uma trajetória marcada pela liberdade criativa. Embora seja frequentemente associado à Bossa Nova, sua música nunca ficou presa a um único movimento. Ao longo de mais de sete décadas de carreira, aproximou a música brasileira do jazz e de ritmos latino-americanos, criando uma sonoridade própria e reconhecida internacionalmente.
A relação de Donato com a música começou ainda na infância. Antes mesmo de completar 10 anos, já demonstrava talento para o acordeão e, aos oito, compôs sua primeira música, a valsa “Nini”. Ele cresceu em uma família musical: o pai tocava bandolim, a mãe cantava e a irmã mais velha estudava piano.
Em 1945, aos 11 anos, deixou Rio Branco com a família e foi para o Rio de Janeiro. A mudança marcou o início de uma trajetória que o levaria aos principais círculos musicais do país. Ainda adolescente, Donato passou a frequentar encontros de músicos e, aos 15 anos, já atuava profissionalmente.
Foi nesse ambiente que se aproximou de nomes que posteriormente se tornariam referências da música brasileira, entre eles João Gilberto e Tom Jobim, além de outros protagonistas da Bossa Nova. Seu primeiro registro fonográfico ocorreu com o grupo de Altamiro Carrilho, antes de iniciar uma trajetória própria.
Na década de 1950, Donato seguiu para os Estados Unidos, onde permaneceu por cerca de 13 anos. A temporada no exterior foi decisiva para sua formação artística. Foi ali que aprofundou o contato com o jazz e com a música afro-cubana, incorporando essas influências ao próprio trabalho.
De volta ao Brasil, encontrou uma cena musical em transformação e passou a atuar ao lado de grandes artistas. Como músico e arranjador, participou de trabalhos de nomes como Gal Costa e Gilberto Gil, além de manter uma produção autoral que atravessou diferentes fases da música brasileira.
Entre suas composições mais conhecidas estão “Amazonas”, “Lugar Comum”, “Até Quem Sabe”, “Simples Carinho”, “Nasci Para Bailar” e “Bananeira”, esta última composta em parceria com Gilberto Gil e posteriormente transformada em um dos clássicos associados ao nome do acreano.
Apesar de ter construído a carreira longe do Acre, Donato manteve uma ligação profunda com a terra onde nasceu. Em entrevistas, falou sobre as lembranças da infância em Rio Branco e sobre a influência da Amazônia em sua formação e em sua obra.

A canção “Amazonas” é um dos exemplos mais conhecidos dessa conexão. Em participação no programa Conversa com Bial, o músico relembrou a infância no Acre e falou sobre a inspiração para a composição.
A dimensão amazônica de sua obra também foi destacada em estudos e homenagens dedicados ao artista. Sua música incorporou referências brasileiras, latino-americanas e amazônicas sem perder a capacidade de dialogar com o jazz e a música internacional.
Não por acaso, o nome de João Donato também batiza um dos principais espaços culturais do Acre. A Usina de Arte João Donato, em Rio Branco, tornou-se um importante equipamento dedicado à formação e à produção artística no Estado.
Um legado que continua
João Donato morreu aos 88 anos, em julho de 2023, exatamente um mês antes de completar 89. Sua morte encerrou uma trajetória de mais de sete décadas, mas não apagou uma obra que continua sendo revisitada por músicos e admiradores da música brasileira.
Nesta segunda-feira, quando o calendário marca mais um aniversário de seu nascimento, o Acre tem um motivo especial para lembrar João Donato. Há 92 anos, nascia em Rio Branco um menino que começou no acordeão, descobriu o piano, atravessou o jazz, a Bossa Nova e os ritmos latinos e acabou levando um pouco da Amazônia para os palcos do mundo.
João partiu, mas sua música continua fazendo o caminho de volta: do mundo para o Acre e do Acre para o mundo.





