Um Fusca dentro do igarapé, sofás, geladeiras, fogões, pneus e toneladas de outros resíduos. O cenário encontrado nos cursos d’água de Rio Branco expõe um problema que vai muito além da sujeira: o lixo acumulado pode comprometer o escoamento da água e agravar alagações durante o período de chuvas. É para tentar evitar que esse roteiro se repita que a Prefeitura lançou, nesta terça-feira, 15, o Programa Cuidar Rio Branco, uma força-tarefa que pretende atacar o problema antes que a água chegue às casas.
“A gente está se antecipando diante do que a gente tem nas condições climáticas”, afirmou o prefeito Alysson Bestene durante o lançamento da ação, realizado na Rua Botafogo, no Bairro da Paz, região cortada pelo Igarapé Batista.
A operação começou justamente em uma das áreas consideradas mais vulneráveis durante o período chuvoso. A proposta é limpar os igarapés, retirar entulhos, recuperar pontos degradados, identificar áreas de risco e levar ações de educação ambiental diretamente às comunidades.

O tamanho do desafio é expressivo. Segundo o titular da Secretaria Municipal de Cuidados com a Cidade (SMCCI), Tony Roque, a Prefeitura trabalha com uma estimativa de retirada de cerca de 30 toneladas de resíduos por dia durante a operação.
E o histórico das limpezas mostra que não se trata apenas de garrafas, sacolas ou pequenos objetos. Durante uma ação anterior, uma carcaça de Fusca foi retirada do leito do igarapé. Agora, as equipes voltam a encontrar materiais de grande porte descartados irregularmente nos cursos d’água.
“Você vê geladeira, fogão, pneu, sofá. A gente perde até tempo para lembrar dessa situação, e a natureza não aceita”, afirmou Tony.

A estratégia do programa é mudar a lógica de atuação: em vez de esperar o período de chuvas e correr atrás dos estragos provocados pelas enxurradas, a Prefeitura quer preparar os pontos mais críticos com antecedência. “Esses fundos de vales e igarapés merecem um olhar preventivo por parte das ações municipais”, disse Alysson.
O trabalho começa pelo Igarapé Batista, deve avançar para o Igarapé São Francisco e chegar posteriormente ao entorno do Rio Acre. A previsão é alcançar aproximadamente oito quilômetros de áreas de córregos e igarapés.
A ação envolve diferentes setores da administração municipal, incluindo Meio Ambiente, Cuidados com a Cidade, Defesa Civil, Educação, Saúde e Assistência Social.

A ideia é que a limpeza não seja uma operação isolada. Ao mesmo tempo em que máquinas e equipes retiram o lixo, servidores deverão entrar nas comunidades para orientar os moradores e identificar situações que possam representar risco.
Para os moradores do Bairro da Paz, a preocupação não é apenas ambiental. Quando a chuva aperta, o problema chega literalmente à porta de casa.
A pastora Sebastiana Carvalho da Silva, de 58 anos, conhece esse drama de perto. Moradora da região, ela conta que já viu a água invadir sua residência em pelo menos três ocasiões. “Se não limpar esse igarapé, no inverno, quando a água vem, cobre a nossa casa. Já aconteceu três vezes. Não é fácil a gente ser alagada todos os anos para acabar com tudo nosso”, relatou.

Segundo Sebastiana, a limpeza do igarapé faz diferença para quem vive na área. “Quando é limpo, a água não vai alagar para chegar dentro da nossa casa”, afirmou.
A moradora também comemorou a recuperação da ponte e as melhorias realizadas na Rua Botafogo. Segundo ela, a comunidade aguardava há anos por intervenções na via.
A secretária de Meio Ambiente da Capital, Flaviane Agustini Stedille, explicou que o programa terá uma frente específica para identificar áreas degradadas e pontos que precisam de recuperação ambiental.

Também serão retiradas árvores mortas, entulhos e outros obstáculos que possam comprometer o funcionamento dos igarapés. A Prefeitura pretende ainda mapear áreas que poderão ser restauradas quando o período chuvoso retornar.
Mas, para a gestão, nenhuma operação de limpeza será suficiente se o lixo continuar sendo lançado nos cursos d’água. “A gente vem com a educação ambiental já no trabalho preventivo, para evitar que isso aconteça”, afirmou a gestora.
A proposta é levar esse trabalho para escolas e comunidades, envolvendo moradores na preservação dos mananciais.

“Não é só limpar”
Alysson Bestene reforçou que o Cuidar Rio Branco não foi criado apenas para retirar toneladas de lixo dos igarapés. “Cuidar Rio Branco envolve todos esses processos, não só a remoção, roçagem de entulhos e recuperação de algumas áreas degradadas, mas também, principalmente, a educação ambiental e a prevenção”, afirmou.
A Prefeitura também pretende orientar moradores sobre o descarte correto de resíduos e os riscos provocados pelo acúmulo de lixo em córregos e igarapés.

A preocupação aumenta diante do histórico de enxurradas e alagamentos em diferentes pontos da capital. Para a gestão, preparar os cursos d’água agora pode significar reduzir problemas quando as chuvas mais fortes chegarem.
O programa começa no Bairro da Paz, mas a operação deve avançar por outras regiões de Rio Branco. A meta é transformar a limpeza dos igarapés em uma ação preventiva contínua — e não apenas em uma resposta emergencial quando a água já estiver subindo.






