Rio Branco, AC, 24 de outubro de 2026 14:11
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Aprender a ler sem repetir o barulho dos outros

​Lembro-me da carteira de madeira, do sorriso solto dos colegas na entrada da escola e do cuidado quase sagrado com a farda. A camisa branca de tergal, com aqueles botões claros e transparentes, precisava ser cuidadosamente dobrada em cima da cama ao chegar em casa para durar a semana toda. Estávamos ali, meninos do interior, aprendendo a nos formar para a vida. Mas nem tudo no caminho das letras era suave.

​Minha alfabetização começou na famosa Cartilha Caminho Suave. A professora pedia para abrirmos o livro na lição da letra X, com o desenho marcado na página. Eu ainda não sabia ler direito e sentia um nó seco na garganta, desses que paralisam a infância. Como a leitura na sala seguia uma sequência, meu recurso era prestar atenção nos colegas que liam primeiro. Eu decorava o som das palavras, o ritmo da voz deles, e quando chegava a minha vez, apontava o dedo para o papel e fingia que lia: “O xale é da vovó…”

​Eu repetia de memória. Não estava decifrando a linguagem; estava apenas reproduzindo o barulho dos outros para me proteger.

​E eu não estava sozinho naquela estratégia. Olhando de lado, percebia outros meninos de farda dobrada usando do mesmo recurso. Éramos companheiros de truque, aprendendo juntos a nos esquivar do julgamento da sala.

​Na infância, preso à inocência singela do papel, nenhum de nós alcançava a profundidade oculta nas palavras. Para o menino na carteira de madeira, o xale era apenas um pedaço de pano e a vovó era apenas uma figura bonita de cartilha; ninguém nos contava das dores, das renúncias nem das lutas que habitavam por trás daquela imagem.

​A gente cresce e a vida vai nos mostrando que as letras não servem apenas para enfeitar o caderno, mas para nos ensinar a decifrar a vida que pulsa do lado de fora da janela. Tive a sorte de, a certo ponto do caminho, perceber que não podia passar a vida inteira apenas fingindo ler.

​Descobri, com o tempo, que o mundo adulto carrega uma engrenagem antiga — silenciosa e muito bem ajustada — que prefere o silêncio ao espanto. É um projeto invisível que se aproveita daquela nossa velha vergonha de criança e aposta no cidadão anestesiado, aquele que aceita tudo sem perguntar o motivo.

​Essa engrenagem começa sutilmente na lousa da escola e vai se alastrando pela informação mastigada que chega ao celular e pelos discursos fáceis da rotina. E é doloroso ver que muitos daqueles meus amigos de infância, companheiros da mesma carteira de madeira, continuam fazendo a mesma leitura: cresceram, mas seguem fingindo que leem o mundo, apenas repetindo o barulho dos outros para se proteger.

​Essa necessidade de repetir sem questionar encontra na fé o mesmo solo fértil. Porque há também quem use o sagrado não para libertar ou acolher, mas para estreitar os passos através do dogma que amedronta.

​E o que deveria ser consolo e esperança acaba virando mais uma forma de calar o pensamento. Há uma ironia curiosa nisso: ensinam-nos que a fé é capaz de mover montanhas, mas tentam nos convencer de que perguntar o porquê das coisas é um pecado.

​O dogma vertical, que desce pronto do altar e da autoridade de plantão, exige um silêncio tão grande que mal cabe no bolso.

​Assim, de ordem em ordem, de silêncio em silêncio, vai se construindo um mundo de certezas impostas. Quem ousa questionar é logo visto com desconfiança. Criminaliza-se a dúvida, persegue-se a política feita com consciência e desencoraja-se a própria capacidade de sonhar com algo diferente. Fica parecendo que a única escolha possível é aceitar o destino que desenharam para nós.

​É por isso que a civilização não caminha em fila indiana, recebendo ordens de cima. A convivência humana exige o olhar nos olhos, a escuta atenta e a construção conjunta. Afinal, gente não foi feita para marchar; foi feita para conversar.

​Esse projeto de desarmar a reflexão é tão bem-sucedido que conseguiu envenenar a sociedade com uma ilusão perigosa: a de que a política e o destino comum não importam. Me causa uma dor profunda ouvir o dar de ombros de quem diz: “Não me importo com a política, ganhe quem ganhar, na segunda-feira eu tenho que trabalhar do mesmo jeito”. É o eco maduro daquele mesmo fingimento de criança — a falsa segurança de quem pensa que, por apontar o dedo para a página, já entendeu a história toda.

​A ideia de que a política não presta é uma construção feita sob medida para os donos dos velhos privilégios. Quando o povo se afasta da conversa, eles continuam decidindo tudo sozinhos. Mas o ser humano nunca viveu isolado; fomos feitos para viver em comunidade. O pão na mesa, o posto de saúde, a segurança na rua e a dignidade do trabalho e da moradia: tudo isso passa pela vida em comum. Afastar-se disso não é independência; é entregar a chave da própria casa para que estranhos administrem a nossa vida.

​Neste domingo, não se trata de discutir torcida, seguir gurus ou alimentar rivalidades cegas. Trata-se de olhar em volta, reconhecer as dores reais da nossa gente — inclusive a dos velhos colegas de escola — e exercer a cidadania com a dignidade de quem sabe o peso e a força de cada gesto.

​A verdadeira educação não serve para nos ensinar a resignar, mas para nos devolver a capacidade de transformar. Aprender a ler o mundo com autonomia é entender que o xale da vovó nunca foi apenas um pano: era história, afeto e resistência. E a vida de verdade começa quando a gente perde o medo da lousa e se atreve a pensar com a própria cabeça.

​Emylson Farias
Delegado de Polícia