Lembro-me da carteira de madeira, do sorriso solto dos colegas na entrada da escola e do cuidado quase sagrado com a farda. A camisa branca de tergal, com aqueles botões claros e transparentes, precisava ser cuidadosamente dobrada em cima da cama ao chegar em casa para durar a semana toda. Estávamos ali, meninos do interior, aprendendo a nos formar para a vida. Mas nem tudo no caminho das letras era suave.
Minha alfabetização começou na famosa Cartilha Caminho Suave. A professora pedia para abrirmos o livro na lição da letra X, com o desenho marcado na página. Eu ainda não sabia ler direito e sentia um nó seco na garganta, desses que paralisam a infância. Como a leitura na sala seguia uma sequência, meu recurso era prestar atenção nos colegas que liam primeiro. Eu decorava o som das palavras, o ritmo da voz deles, e quando chegava a minha vez, apontava o dedo para o papel e fingia que lia: “O xale é da vovó…”
Eu repetia de memória. Não estava decifrando a linguagem; estava apenas reproduzindo o barulho dos outros para me proteger.
E eu não estava sozinho naquela estratégia. Olhando de lado, percebia outros meninos de farda dobrada usando do mesmo recurso. Éramos companheiros de truque, aprendendo juntos a nos esquivar do julgamento da sala.
Na infância, preso à inocência singela do papel, nenhum de nós alcançava a profundidade oculta nas palavras. Para o menino na carteira de madeira, o xale era apenas um pedaço de pano e a vovó era apenas uma figura bonita de cartilha; ninguém nos contava das dores, das renúncias nem das lutas que habitavam por trás daquela imagem.
A gente cresce e a vida vai nos mostrando que as letras não servem apenas para enfeitar o caderno, mas para nos ensinar a decifrar a vida que pulsa do lado de fora da janela. Tive a sorte de, a certo ponto do caminho, perceber que não podia passar a vida inteira apenas fingindo ler.
Descobri, com o tempo, que o mundo adulto carrega uma engrenagem antiga — silenciosa e muito bem ajustada — que prefere o silêncio ao espanto. É um projeto invisível que se aproveita daquela nossa velha vergonha de criança e aposta no cidadão anestesiado, aquele que aceita tudo sem perguntar o motivo.
Essa engrenagem começa sutilmente na lousa da escola e vai se alastrando pela informação mastigada que chega ao celular e pelos discursos fáceis da rotina. E é doloroso ver que muitos daqueles meus amigos de infância, companheiros da mesma carteira de madeira, continuam fazendo a mesma leitura: cresceram, mas seguem fingindo que leem o mundo, apenas repetindo o barulho dos outros para se proteger.
Essa necessidade de repetir sem questionar encontra na fé o mesmo solo fértil. Porque há também quem use o sagrado não para libertar ou acolher, mas para estreitar os passos através do dogma que amedronta.
E o que deveria ser consolo e esperança acaba virando mais uma forma de calar o pensamento. Há uma ironia curiosa nisso: ensinam-nos que a fé é capaz de mover montanhas, mas tentam nos convencer de que perguntar o porquê das coisas é um pecado.
O dogma vertical, que desce pronto do altar e da autoridade de plantão, exige um silêncio tão grande que mal cabe no bolso.
Assim, de ordem em ordem, de silêncio em silêncio, vai se construindo um mundo de certezas impostas. Quem ousa questionar é logo visto com desconfiança. Criminaliza-se a dúvida, persegue-se a política feita com consciência e desencoraja-se a própria capacidade de sonhar com algo diferente. Fica parecendo que a única escolha possível é aceitar o destino que desenharam para nós.
É por isso que a civilização não caminha em fila indiana, recebendo ordens de cima. A convivência humana exige o olhar nos olhos, a escuta atenta e a construção conjunta. Afinal, gente não foi feita para marchar; foi feita para conversar.
Esse projeto de desarmar a reflexão é tão bem-sucedido que conseguiu envenenar a sociedade com uma ilusão perigosa: a de que a política e o destino comum não importam. Me causa uma dor profunda ouvir o dar de ombros de quem diz: “Não me importo com a política, ganhe quem ganhar, na segunda-feira eu tenho que trabalhar do mesmo jeito”. É o eco maduro daquele mesmo fingimento de criança — a falsa segurança de quem pensa que, por apontar o dedo para a página, já entendeu a história toda.
A ideia de que a política não presta é uma construção feita sob medida para os donos dos velhos privilégios. Quando o povo se afasta da conversa, eles continuam decidindo tudo sozinhos. Mas o ser humano nunca viveu isolado; fomos feitos para viver em comunidade. O pão na mesa, o posto de saúde, a segurança na rua e a dignidade do trabalho e da moradia: tudo isso passa pela vida em comum. Afastar-se disso não é independência; é entregar a chave da própria casa para que estranhos administrem a nossa vida.
Neste domingo, não se trata de discutir torcida, seguir gurus ou alimentar rivalidades cegas. Trata-se de olhar em volta, reconhecer as dores reais da nossa gente — inclusive a dos velhos colegas de escola — e exercer a cidadania com a dignidade de quem sabe o peso e a força de cada gesto.
A verdadeira educação não serve para nos ensinar a resignar, mas para nos devolver a capacidade de transformar. Aprender a ler o mundo com autonomia é entender que o xale da vovó nunca foi apenas um pano: era história, afeto e resistência. E a vida de verdade começa quando a gente perde o medo da lousa e se atreve a pensar com a própria cabeça.
Emylson Farias
Delegado de Polícia





