Há uma expressão que domina as redes sociais entre os mais jovens: “farmar aura”. Na linguagem das gerações Z e Alfa, significa acumular carisma, estilo ou respeito por meio de atitudes marcantes, quase como em um jogo no qual cada gesto rende pontos de popularidade. É um retrato curioso do nosso tempo, em que até a personalidade parece disputar espaço em métricas invisíveis.
Confesso que tentei entender essa lógica. Adaptei-me à internet, aos celulares, às redes sociais, aos aplicativos e às transformações do mundo. Mas há uma coisa à qual nunca consegui me adaptar: viver para parecer. Talvez seja porque pertenço a outra geração.
Nasci no início da década de 1980 e completei, em 21 de maio deste ano, 45 anos de vida. São quarenta e cinco voltas ao redor do sol carregando uma bagagem que nenhuma tecnologia consegue substituir: as lembranças. E, sem qualquer vergonha, admito que sou nostálgico. Não daquela nostalgia inventada para render curtidas, mas da saudade verdadeira, aquela que aperta o peito quando lembramos de pessoas, lugares e momentos que jamais voltarão.
Meu pai costumava repetir uma frase simples, mas carregada de significado: “Bons tempos que não voltam mais.” Na época, eu não compreendia totalmente. Hoje entendo que ele não falava apenas do passado, mas da forma como vivíamos.
Cresci no bairro Aviário, na região central de Rio Branco. Nossa infância acontecia do lado de fora de casa. As ruas eram nossos parques. O futebol era jogado nos campos de várzea. Esconde-esconde, pega-pega, bicicleta, bola de gude e tantas outras brincadeiras dispensavam qualquer tela. As paqueras aconteciam olho no olho, quase sempre acompanhadas de um sorriso tímido e de um frio na barriga que nenhuma mensagem instantânea consegue reproduzir.
Havia também uma sensação quase esquecida nos dias de hoje: a liberdade. Nossos pais permitiam que brincássemos até o anoitecer porque a violência era infinitamente menor. Não existiam facções criminosas impondo medo aos bairros. A criminalidade existia, claro, mas era outra realidade. No imaginário popular, surgiam até figuras folclóricas, como o lendário Marrosa, personagem cercado de histórias que muitos comparavam a uma espécie de Robin Hood do Preventório, próximo à Ladeira do Bola Preta, na Baixada da Sobral.
A juventude também tinha seus templos. Quem viveu aquela época certamente guarda lembranças da danceteria Fazer, em frente à Oca; da Rio Branco; da Via Expressa, com suas matinês do Mingau Dançante; do Mamão Café; do 14 Bis; do Pagode do Juventus; da Casa é Nossa; do Le Village; do Banana Banana; da Psicose; e da inesquecível Lua Azul, cercada por tantas histórias, como a do “capiroto”, que teria aparecido uma vez por lá. Talvez fossem apenas lendas. Talvez fossem apenas boas histórias para alimentar conversas entre amigos.
Havia ainda os fliperamas e as locadoras de videogame, onde disputar uma partida de Street Fighter ou International Superstar Soccer valia mais do que qualquer ranking virtual. O importante era estar junto.
Também guardo com carinho os anos de estudante no Colégio Acreano, sob a direção do professor Raimundo Louro. Era uma escola reconhecida pela disciplina e pelo alto nível de exigência. Reprovar um aluno por alguns décimos não era injustiça; era entendido como consequência da responsabilidade. O ensino valorizava o esforço, e o respeito aos professores fazia parte da formação.
O escritor Mário Quintana escreveu que “o passado não reconhece o seu lugar; está sempre presente”. Talvez seja exatamente isso. O passado não vive apenas na memória. Ele continua nos moldando todos os dias.
Já Carlos Drummond de Andrade dizia que “as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”. Não porque fossem perfeitas, mas porque carregavam significado. Nossa geração não teve uma infância ideal. Tivemos dificuldades, limitações e poucos recursos. Mas, talvez justamente por isso, aprendemos a valorizar o pouco que tínhamos.
Hoje, tudo acontece depressa. As relações são instantâneas. As amizades cabem em uma lista de seguidores. As fotografias são produzidas para serem vistas, e não necessariamente para serem lembradas. A vida ganhou velocidade, mas perdeu um pouco da contemplação.
Não se trata de dizer que o passado era melhor em tudo. Seria injusto ignorar os avanços que conquistamos. Vivemos mais, temos acesso a um conhecimento praticamente infinito e nos comunicamos com qualquer pessoa em segundos. O progresso trouxe benefícios inegáveis.
O que talvez tenhamos deixado para trás foi a capacidade de viver sem transformar cada momento em espetáculo.
As novas gerações têm muito a ensinar sobre inovação, tecnologia e mudanças. Mas talvez também ganhassem muito se, por um instante, pudessem visitar a infância de seus pais e avós. Não para rejeitar o presente, mas para compreender que a felicidade também podia ser construída sem filtros, sem algoritmos e sem a necessidade de “farmar aura”.
Porque, no fim das contas, a verdadeira aura nunca foi acumulada nas redes sociais. Ela foi construída nas calçadas dos bairros, nos campos de futebol de terra, nas salas de aula, nas noites de dança, nas amizades sinceras e nas histórias que continuam sendo contadas décadas depois.
E talvez seja exatamente por isso que, aos 45 anos, continuo acreditando na frase do meu pai. Alguns tempos realmente não voltam. Mas as lembranças deles continuam iluminando o caminho de quem teve o privilégio de vivê-los.





