Rio Branco, AC, 11 de julho de 2026 15:10
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Ganhamos segundos, perdemos a eternidade

​O meu faro de homem do interior — esse sensor invisível que a gente traz na bagagem quando sai do aconchego da nossa terra — me diz que há algo de profundamente errado com o tempo de hoje. Escrevo este texto no silêncio de sábado sabendo que, se o velho ditado diz que tempo é dinheiro, a humanidade moderna decidiu falir com estilo. Repare ao seu redor, ou talvez na sua própria mão neste exato momento: vivemos sob a tirania do clique urgente. Tornamo-nos incapazes de ouvir a voz de um amigo no celular sem acionar o implacável botão de velocidade dupla. Queremos a informação, o afeto e a piada, mas os queremos mastigados, deglutidos e entregues na metade do tempo cronológico.

​Essa pressa histérica não é apenas falta de paciência; é o sintoma de uma mutação muito mais profunda e perigosa. O pensador Byung-Chul Han, em sua obra A Sociedade do Cansaço, diz que viramos carrascos de nós mesmos na busca por produtividade, enquanto Zygmunt Bauman nos alertava sobre como a velocidade derrete os nossos laços afetivos e sociais. Mas o diagnóstico real, aquele que dói no peito, vai além da sociologia: será que estamos adoecendo a alma e nos desumanizando?

A verdade é que, quando tudo se torna líquido, nada permanece. Na pressa de fazer o tempo render, nossas relações perdem a consistência e escorrem pelos dedos. Tornamo-nos anestesiados. O outro passou a ser um estorvo, uma tela que demora a carregar, um áudio longo que dá preguiça de escutar. Trancamo-nos em um narcisismo cego e infantil, onde o mundo só existe se for para nos entreter ou nos dar retorno imediato. O egocentrismo virou a nossa única regra de conduta. Perdemos a capacidade da empatia, a paciência de acolher uma dor que não se resolve em trinta segundos, trocando a profundidade do afeto pela superfície de um espelho virtual que só reflete a nossa própria ansiedade. Quem corre o tempo todo não tem tempo de olhar nos olhos de ninguém. Na pressa de acumular curtidas e contatos, o que nos sobra são relações frívolas, cascas superficiais que não resistem a uma tarde de chuva.

​Falta o peso e o afeto daquela relação tipicamente interiorana, que a modernidade parece ter esquecido como se faz: o abraço apertado no amigo de infância que dividia o lanche contigo na escola e cuja cumplicidade a gente carrega para a vida inteira. A amizade real, assim como qualquer vínculo profundo, exige o luxo da lentidão. Ela precisa de chão para fincar raízes, precisa ser testada pelo tempo para se tornar sólida.

​É aí que os grandes tratados sociológicos precisam pedir licença para que a gente possa respirar. Contra o cansaço do ego e a liquidez do mundo, o remédio é resgatar o peso do chão. E essa solidez, para mim, tem a geografia e a simplicidade das minhas origens: tem o compasso de estar sentado na beira do Rio Xapuri vendo as águas passarem sem pressa nenhuma de chegar ao mar.

Mário Quintana, o nosso poeta das coisas simples, lembrava que o passarinho na árvore é o verdadeiro dono do tempo porque nunca usou relógio. Há uma delícia profunda em se demorar num banco de praça ao cair da tarde, escutando esse canto manso enquanto a igreja toca o sino.

​Aquele badalar das dezoito horas, o sino da novena, ecoa sobre os telhados e se perde na floresta, mudando o cenário, mudando a paisagem e vestindo o mundo com as cores do início da noite. Quem está sentado ali sente o tempo recuperar a sua dignidade. Aquilo tem cara e cor de solidez. Sólido porque respeita o ritmo do corpo, a memória do lugar e a presença de quem está ao lado. Na beira do rio, a pressa dos algoritmos parece uma piada de mau gosto de uma humanidade que esqueceu como se contempla o horizonte.

​Ganhamos segundos preciosos acelerando o mundo das telas, é verdade. Mas perdemos a eternidade que mora nas coisas simples. Quem quiser entender a nossa neurose, que procure as teorias; mas quem quiser o remédio, que experimente olhar o fim de tarde sem ansiedade, escutar a vida em velocidade normal e aceitar que o que realmente importa não cabe em um clique. Dê-se o direito de desacelerar. O rio continua correndo, o sino ainda toca e as estrelas, no céu do nosso Acre, não têm pressa nenhuma.

​Emylson Farias – Delegado de Polícia