Rio Branco, AC, 30 de agosto de 2026 00:31
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O sacerdócio silencioso

​Conheci o menino antes de qualquer juramento de posse. Éramos jovens, com vinte e poucos anos no rosto, o peito transbordando de utopia e as pastas carregadas de livros para os concursos que prestávamos na época. Éramos filhos do Acre que tinham saído para estudar fora, mas cujos corações nunca deixaram esta terra. Voltávamos para casa cheios de sonhos, com a cabeça fervilhando de ideias e o desejo genuíno de ajudar a construir o nosso Estado, buscando ali as nossas primeiras oportunidades.

​Nosso pouso foi naquela sala inesquecível do Ministério Público, onde trabalhávamos como assessores jurídicos. Ali, dividindo o espaço entre a Promotoria do Júri e o Controle Externo, a vida acontecia em carne e osso. Havia uma atmosfera maravilhosa, compartilhada por nós e por outros amigos incríveis que se tornaram irmãos de jornada. Que dias perfeitos! Eram tempos de amizade pura, de uma ingenuidade bonita e daquela certeza luminosa de que tínhamos um futuro promissor pela frente.

​Lembro do calor das tardes acreanas, da beleza do sol entrando pela janela, do cheiro de café, das gavetas emperradas e do barulho da impressora cuspindo papéis. Mas, acima de tudo, lembro da alegria: do chegar de manhã com um aperto de mão firme, dos abraços sinceros, das piadas e brincadeiras no meio do expediente, das dúvidas jurídicas divididas em voz alta e do alívio fraternal quando a sexta-feira apontava, prometendo o descanso com a família.

​O tempo passou e a vocação de cada um se fez destino: eu vesti o distintivo de Delegado; ele abraçou a missão de Defensor Público. Ao longo da vida, os nossos caminhos nunca se separaram. Conversávamos sobre a rotina, projetávamos o futuro, falávamos até sobre a sonhada aposentadoria, mas era na prática da profissão que a grandeza dele se revelava.

​Quantas e quantas vezes, do meu balcão na delegacia, deparei-me com pessoas precarizadas, desassistidas, vivendo situações injustas ou levadas até ali em estado de extrema vulnerabilidade. Nessas horas, era para ele que eu ligava. Ele atendia a cada uma dessas chamadas com uma dedicação e uma deferência rara.

​Se o caso era da alçada da vara em que atuava, ele próprio resolvia; se dependia de outra atribuição, movia céus e terra, acionando colegas imediatamente para que ninguém ficasse sem resposta. Ele não adiava o socorro: marcava o dia, o horário, o local e o nome de quem iria acolher aquela pessoa. Ninguém saía desamparado.

​O cuidado com o outro não era um dever funcional para ele; era alma, era essência — uma verdadeira segunda pele.

​Existe uma história antiga sobre Sísifo, um homem condenado a empurrar uma pedra enorme até o topo de uma montanha, só para ver a pedra rolar de volta para o chão e ter que começar tudo de novo, dia após dia. A vida de quem trabalha com a dor alheia é meio assim: a gente limpa a mesa hoje, e amanhã ela amanhece cheia. A gente resolve o problema de uma pessoa, e surgem mais dez precisando de socorro. É uma repetição que parece não ter fim.

​Mas existe uma sabedoria bonita em entender que a vida não está no topo do morro, nem no fim da tarefa. O sentido da vida está no jeito que a gente carrega essa pedra pelo caminho. O meu amigo deu causa à vida porque ele não carregava a pedra dele com raiva ou cansaço; ele carregava com amor.

​Nos últimos tempos, enfrentando em silêncio e bravura a rigidez de um câncer já avançado, ele deu a maior lição de todas. Trabalhou até onde as forças físicas permitiram. Não por obrigação, mas porque no ato de cuidar do outro ele encontrava o seu próprio alento, o seu refúgio e a sua forma de abraçar a vida até o último segundo.

​Há uma nobreza profunda, um gesto genuinamente cristão, em transformar a própria dor em amparo para a dor alheia. Mesmo sob o peso da doença, ele manteve a leveza no rosto. Encontrou a plenitude ali: fez do seu trabalho uma constante e inabalável missão de amor.

​A vida é esse punhado de deveres que trouxemos para fazer em casa. Quando a gente espia o relógio, o dia acabou; quando se olha pela janela, o ano passou… e a tarefa, enfim, se cumpriu. Aos quarenta e nove anos, ele nos deixa a saudade, mas deixa também um legado inestimável. Fez da sua passagem um sacerdócio silencioso. Dedicou seus dias a cuidar dos hipossuficientes, dos desassistidos, daqueles que não tinham voz nem condição financeira para se defender das penúrias da sorte.

​Agora que se encanta e parte para outro plano espiritual, a saudade se transforma em prece e apelo. Que de lá, ele não abandone o seu ofício. Que nos acolha, reze por nós e continue a sua missão infinita de cuidar. Porque, diante do absurdo do tempo e do mistério da despedida, não passamos, nenhum de nós, de imensos desamparados. Somos nós, agora, os hipossuficientes. Somos a mesma gente frágil, as mesmas almas carentes, exatamente o mesmo rebanho que ele passou a vida inteira cuidando.

​Vá em paz, meu amigo Cássio. A sua pedra ficou, mas o amor extraordinário com que você a carregou floresceu de vez no nosso caminho.

Emylson Farias
Delegado de Polícia