Rio Branco, AC, 30 de agosto de 2026 01:23
Home / Artigos / Só por um instante, deixemos a política de lado. Que possamos refletir sobre a vida, a família e o afeto. Força, Pedro, Tiago, Lito e tantos outros.

Só por um instante, deixemos a política de lado. Que possamos refletir sobre a vida, a família e o afeto. Força, Pedro, Tiago, Lito e tantos outros.

Em ano de eleição, parece que tudo vira política. A conversa no café vira política. A mesa de família vira política. O grupo de WhatsApp vira política. O amigo se afasta do amigo, o irmão se irrita com o irmão, pessoas que nunca haviam trocado uma palavra passam a se odiar por causa de candidatos que, muitas vezes, sequer sabem seus nomes. O país entra em uma espécie de febre eleitoral, e todos parecem ter uma opinião definitiva sobre tudo. Mas hoje eu queria pedir uma coisa: só por um instante, deixemos a política de lado. Esqueçamos um pouco os candidatos, os partidos, as pesquisas, as disputas, os ataques e os palanques. Pensemos naquilo que existe antes de qualquer eleição e continuará existindo depois dela: a vida. A família. O afeto. O abraço. A palavra “amo te” que tantas vezes morre na garganta porque acreditamos que teremos tempo para dizê-la amanhã.

Antônio Abujamra nos deixou uma pergunta que talvez seja uma das mais simples e mais difíceis já feitas na televisão brasileira: “O que é a vida?” Durante os 15 anos em que apresentou o Provocações, na TV Cultura, entre 2000 e 2015, o ator, diretor e dramaturgo encerrava as entrevistas com essa pergunta. Não era uma formalidade. Era uma provocação. Abujamra não parecia interessado em respostas bonitas. Queria colocar o entrevistado diante de uma pergunta para a qual não existe resposta pronta. E talvez hoje devêssemos fazer essa mesma pergunta, não aos políticos, não aos empresários, não aos intelectuais, mas a nós mesmos: o que é a vida?

Será que é o patrimônio que acumulamos? A casa maior? O carro mais caro? O cargo mais importante? A conta bancária? O número de pessoas que nos conhecem? A quantidade de seguidores? A roupa que vestimos? O bairro onde moramos? Será que a vida é uma espécie de campeonato no qual vence aquele que consegue ter mais do que o outro? Há algo profundamente equivocado quando começamos a medir seres humanos pelo tamanho de suas posses. Prosperar não é pecado. Trabalhar, conquistar, guardar dinheiro, construir patrimônio, oferecer conforto à família — tudo isso faz parte da vida. O problema é quando o patrimônio deixa de ser consequência e passa a ser finalidade; quando possuir se torna mais importante do que viver; quando alguém começa a acreditar que é melhor simplesmente porque tem mais.

É nesse ponto que uma frase atribuída a Eduardo Marinho, conhecido como o “filósofo das ruas”, merece ser lembrada: “Eu não quero vencer na vida. Eu quero viver.” E talvez exista uma diferença enorme entre essas duas coisas. Fomos educados para vencer. Para competir. Para chegar primeiro. Para ganhar mais. Para acumular. Para mostrar. Mas quem nos ensinou a viver? Quem nos ensinou a parar? Quem nos ensinou a olhar para o filho enquanto ele fala? A sentar ao lado dos pais sem pressa? A abraçar alguém sem precisar de uma razão? A dizer “eu te amo” sem vergonha? Quem nos ensinou que uma tarde aparentemente inútil pode ser uma das melhores lembranças que alguém levará para a vida inteira?

Talvez algumas respostas estejam na história de Pedro, de 12 anos, e Tiago, de 7. Dois irmãos acreanos que deveriam estar vivendo as pequenas urgências da infância, mas foram colocados diante de uma batalha que nenhum menino deveria conhecer tão cedo. Diagnosticados com Distrofia Muscular de Cinturas tipo 2C, uma doença genética rara, progressiva e degenerativa, os irmãos enfrentam uma perda gradual de força muscular que pode comprometer movimentos simples — correr, brincar, subir escadas, caminhar — e, com a evolução da doença, até funções vitais. A família conseguiu uma possibilidade de participar de um estudo de terapia gênica nos Estados Unidos, mas precisa arrecadar aproximadamente R$ 5,2 milhões para viabilizar essa tentativa.

E há um detalhe que transforma essa história em uma verdadeira corrida contra o relógio: Pedro tem 12 anos e o protocolo do estudo estabelece limite de 13 anos para participação. A família não está correndo atrás de dinheiro para comprar uma casa maior, um carro novo ou uma vida de luxo. Está correndo atrás de uma possibilidade. Está tentando comprar tempo — justamente aquilo que nenhum dinheiro consegue comprar depois que ele passa.

Pense nisso por alguns segundos: há uma família tentando conseguir milhões para ganhar tempo, enquanto tanta gente desperdiça o tempo que tem. Pedro e Tiago precisam de dinheiro para tentar preservar movimentos que nós sequer percebemos que são um privilégio. Levantar da cama. Correr. Subir uma escada. Jogar bola. Brincar. Abraçar. Enquanto isso, há pais que chegam em casa cansados demais para brincar com os filhos; mães que prometem uma visita para o fim de semana; filhos que deixam para telefonar para os pais na segunda-feira; amigos que passam meses dizendo “vamos marcar”; casais que vivem na mesma casa, mas já não conversam. E todos nós repetimos a palavra mais perigosa da vida: depois.

Depois eu ligo. Depois eu vou. Depois a gente conversa. Depois eu brinco com você. Depois eu digo que amo. O problema é que ninguém recebeu garantia de que haverá depois.

É por isso que a história de Lito Sousa parece atravessar a gente de maneira tão diferente. Aos 59 anos, o piloto e influenciador recebeu o diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob, uma rara enfermidade neurodegenerativa, de evolução rápida e sem tratamento estabelecido. No dia em que recebeu o diagnóstico, Lito gravou um vídeo ao lado da esposa, Mila Seidl. Não falou sobre dinheiro. Não falou sobre patrimônio. Não falou sobre aquilo que havia acumulado durante a vida. Falou sobre o filho de sete anos. Falou sobre a vontade de ter mais tempo. Falou sobre jogar bola com o menino. Falou sobre a possibilidade de não estar aqui para acompanhar seu crescimento. E então disse uma frase que parece pequena, mas carrega o peso de um mundo inteiro: “Eu não sei como vou falar para ele que vou virar estrelinha.”

É nesse momento que a palavra patrimônio parece perder o sentido.

Porque um pai diante da possibilidade de partir não pensa no tamanho da casa. Pensa em quem ficará dentro dela. Não pensa no carro. Pensa em quem estará no banco do passageiro. Não pensa na conta bancária. Pensa em quem poderá sentir sua falta. Não pensa em quanto acumulou. Pensa em quanto tempo ainda terá para ouvir a voz do filho.

Talvez essa seja a maior ironia da existência: passamos boa parte da vida trabalhando para construir segurança para o futuro e, quando o futuro deixa de ser uma certeza, percebemos que aquilo que mais queríamos não estava à venda.

Tempo não se compra. A infância não se recompra. O abraço perdido não volta. A conversa que não aconteceu não pode ser remarcada. A última ligação não tem segunda tentativa. A última fotografia não avisa que será a última. A última vez que um filho corre para os braços do pai não vem com uma placa dizendo: “aproveite, porque amanhã será diferente.” A vida simplesmente acontece. E depois passa.

Talvez seja por isso que músicas como Time, do Pink Floyd, tenham atravessado gerações. Porque falam daquilo que todos sabemos, mas frequentemente esquecemos: o relógio continua andando enquanto estamos ocupados esperando a vida começar. Dream On, do Aerosmith, nos lembra dos sonhos enquanto o tempo segue. The Show Must Go On, do Queen, fala da resistência diante da dor. Forever Young, do Alphaville, toca naquilo que todos nós, em algum lugar secreto, gostaríamos de fazer: deter o tempo.

Na música Epitáfio, dos Titãs, parece uma conversa com aquilo que gostaríamos de ter feito diferente. Tocando em Frente, de Almir Sater e Renato Teixeira, fala da estrada, das perdas, do aprendizado e da simplicidade de continuar. Tempos Modernos, de Lulu Santos, é quase um desejo coletivo de que a vida possa ser melhor, mais leve e mais bonita. Talvez essas canções nos lembrem que viver não é chegar a algum lugar. É perceber o caminho enquanto caminhamos.

E talvez seja exatamente aí que a política precise, por um instante, sair do centro. Não porque política não seja importante. É importante. Decide destinos. Define políticas públicas. Muda vidas. Eleições importam. Governos importam. Escolhas coletivas importam. Mas a política não pode ocupar todo o espaço da existência. A vida continua — e ela não espera o resultado das urnas

Pedro e Tiago estão nos lembrando disso de uma maneira dolorosa: há batalhas que não podem esperar. Lito também. Há famílias para as quais amanhã não é apenas uma palavra bonita. Amanhã é uma luta. É uma esperança. É uma corrida contra o tempo.

E nós, que ainda temos o privilégio de simplesmente acordar, levantar, caminhar, abraçar e dizer “bom dia”, talvez precisemos perceber o tamanho dessa riqueza. Talvez você esteja preocupado demais com o que vai acontecer amanhã e esteja esquecendo de viver o que está acontecendo hoje.

Talvez esteja trabalhando tanto para garantir o futuro que não percebeu que o futuro dos seus filhos está acontecendo diante dos seus olhos. Talvez esteja acumulando tanto que não percebeu que algumas das coisas mais importantes da vida não custam absolutamente nada.

Um abraço. Uma conversa. Um beijo. Um pedido de desculpas. Um café. Uma visita. Uma ligação. Uma palavra. Diga. Não guarde. Não espere uma doença. Não espere um funeral. Não espere uma despedida. Porque depois que a ausência chega, o “eu deveria ter dito” é uma das frases mais dolorosas que alguém pode carregar.

Abujamra perguntava: “O que é a vida?” Talvez Pedro respondesse que é poder continuar andando. Talvez Tiago dissesse que é poder brincar. Talvez Lito dissesse que é ter tempo para ver o filho crescer. Talvez Mila dissesse que é permanecer ao lado de quem ama. Talvez uma mãe dissesse que é ver o filho voltar para casa. Talvez um pai dissesse que é ouvir “papai”. Talvez uma criança dissesse que é poder correr para o colo de alguém.

E talvez nós, adultos, tenhamos complicado demais uma pergunta que pode ser muito simples. A vida é aquilo que ainda podemos viver. Por isso, só por este instante, deixemos a política de lado. Amanhã discutiremos candidatos. Amanhã discutiremos partidos. Amanhã discutiremos eleições. Amanhã discutiremos quem ganhou, quem perdeu, quem mentiu, quem acertou, quem prometeu, quem decepcionou.

Hoje, não.

Hoje olhemos para quem está perto. Olhe para sua família.Olhe para seus filhos. Olhe para seus pais. Olhe para quem divide a cama com você. Olhe para aquele amigo que você não procura há meses. Olhe para a própria vida. E pergunte, com a mesma inquietação de Abujamra: “O que é a vida?”