Rio Branco, AC, 1 de setembro de 2026 16:26
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“Pior que tá não fica”: Tiririca tenta o 5º mandato; Acre também tem seus “abestados” na política

Há frases que atravessam uma eleição. Algumas desaparecem tão rápido quanto o santinho jogado na rua. Outras viram bordão, personagem, meme e, para surpresa de muita gente, currículo político.

“Pior que tá não fica.”

Em 2010, a frase ajudou a transformar o humorista Tiririca em fenômeno eleitoral. Ele recebeu 1,35 milhão de votos para deputado federal por São Paulo, tornou-se o mais votado do país naquele pleito e inaugurou uma das experiências mais curiosas — e controversas — da política brasileira recente.

O detalhe que parecia ser apenas uma piada acabou se transformando em uma carreira de quatro mandatos consecutivos. Agora, em 2026, Tiririca tenta o quinto. Há, porém, uma correção importante: ele não disputará novamente por São Paulo. Mudou o domicílio eleitoral para o Ceará, seu estado natal, e está em campanha para voltar à Câmara dos Deputados pelo estado.

E talvez seja justamente aí que a velha piada deixe de ter graça.

Porque a pergunta já não é mais se Tiririca consegue fazer o eleitor rir. A pergunta é outra: o que, afinal, ele entregou ao eleitor depois que a urna fechou?

Tiririca foi eleito quatro vezes. Em 2014, recebeu mais de 1 milhão de votos. Em 2018, caiu para 453,8 mil. Em 2022, despencou para 71.754 votos, o menor número entre os deputados federais eleitos por São Paulo naquele ano. Ainda assim, conquistou uma cadeira.

É uma trajetória que deveria provocar uma discussão mais séria sobre o sistema político brasileiro.

Não se trata de dizer que o humorista não apresentou propostas, não votou ou simplesmente desapareceu do Congresso. Os próprios registros oficiais mostram atividade parlamentar.

Em 2025, por exemplo, a Câmara registra 23 proposições de autoria, 361 votações nominais e 109 dias de presença em plenário. Em 2026, até o momento consultado, são sete propostas de autoria e 122 votações nominais, além de 65 dias de presença em plenário.

Mas o ponto de uma análise política não pode ser apenas contar presença.

Parlamentar não é funcionário de ponto eletrônico.

A pergunta relevante é: qual foi o peso político desse mandato? Quais grandes debates nacionais tiveram a marca do parlamentar? Quais políticas públicas carregam sua atuação? Que legado legislativo ficou associado ao nome Tiririca?

É aí que a história começa a ficar menos engraçada.

O “abestado” virou método eleitoral

Tiririca não inventou o desencanto com a política. Ele apenas soube transformá-lo em produto eleitoral.

Sua campanha de 2010 era, em essência, uma provocação. O candidato dizia que não sabia o que fazia um deputado federal e prometia contar depois que fosse eleito. O eleitor comprou a brincadeira — e comprou em massa.

O fenômeno foi tão grande que o próprio sistema proporcional ajudou a transformar a votação individual em força partidária. A quantidade de votos recebida por Tiririca contribuiu para eleger outros nomes de sua coligação.

O jornalista Elio Gaspari, em texto publicado pela Folha de S.Paulo em 2024, foi direto ao analisar fenômenos como Enéas e Tiririca. Escreveu que ambos representaram “um desconforto dos eleitores” com a política.

Essa talvez seja a melhor chave para compreender o fenômeno.

Tiririca foi menos causa do problema e mais sintoma dele.

Quando o cidadão vota em alguém porque quer protestar contra a política, o recado não é necessariamente “quero esse homem”. Muitas vezes, é: “não aguento mais os outros”.

E isso é perigoso.

Porque o voto de protesto pode derrubar uma velha estrutura. Mas também pode simplesmente abrir espaço para outra, igualmente improdutiva.

E o Acre conhece muito bem esse roteiro

É aqui que a história deixa de ser sobre São Paulo ou Ceará e passa a conversar diretamente com o Acre.

O estado também conhece seus próprios “Tiriricas” — não necessariamente no sentido literal do humorista, mas no sentido político da personagem eleitoral que aparece de quatro em quatro anos, promete renovação, faz barulho, ocupa espaço, pede novamente o voto e desaparece da agenda pública quando a eleição termina.

Não é preciso apontar um nome específico para reconhecer o fenômeno. Basta olhar para a história eleitoral acreana.

Há políticos que sobrevivem não pela força do trabalho parlamentar, mas pela capacidade de permanecer na disputa. Trocam de partido, mudam o discurso, reinventam a biografia, reaparecem em cada eleição e reapresentam ao eleitor a mesma promessa de sempre.

O mandato anterior deveria ser o principal currículo de qualquer candidato. No Acre, como no restante do país, muitas vezes ele é tratado como detalhe.

E essa é uma das maiores distorções da democracia representativa: o candidato deveria chegar à eleição carregando aquilo que fez. Em muitos casos, chega carregando apenas aquilo que promete fazer.

A questão não é um humorista entrar na política. Não é um artista disputar uma eleição. Não é alguém sem carreira tradicional na política conquistar votos. A democracia não exige que o candidato tenha nascido dentro de um gabinete.

O problema começa quando a fama substitui a competência, o personagem substitui o mandato e o marketing substitui a prestação de contas.

Tiririca chegou à política justamente como personagem. O slogan era uma caricatura do próprio sistema.

O problema é que, depois de quatro mandatos, a caricatura virou instituição.

Em 2017, Gabriel Mascarenhas, da Veja, publicou uma análise extremamente dura sobre a atuação do parlamentar e escreveu que ele “não produziu coisa alguma de relevante” desde a chegada à Câmara, além de afirmar que não participava das discussões importantes e não relatava propostas.

É uma avaliação jornalística de 2017, não um retrato completo da atividade parlamentar atual. Mas ela ajuda a entender por que a imagem pública de Tiririca passou a ser associada muito mais ao personagem do que à produção legislativa.

E existe uma frase ainda mais emblemática.

O jornalista Mauricio Stycer, ao comentar uma entrevista de Tiririca no Programa do Jô, registrou que o deputado dizia estar “numa praia que não é a minha praia”.

Talvez o problema esteja justamente aí.

Política não pode ser uma praia onde o parlamentar entra sem saber nadar e permanece porque descobriu que a maré eleitoral sempre pode trazê-lo de volta.

E aqui está a parte mais desconfortável

Tiririca já anunciou que tenta o quinto mandato consecutivo. Desta vez, pelo Ceará. A candidatura foi confirmada publicamente, e ele aparece na campanha eleitoral de 2026 defendendo uma nova etapa política no estado onde nasceu.

Ou seja: o homem que construiu sua primeira eleição em cima da frase “Pior que tá não fica” descobriu que, na política brasileira, sempre existe uma nova eleição para provar que talvez fique — ou para tentar impedir que fique.

E isso não é exclusividade dele.

É um fenômeno nacional. É também um fenômeno acreano.

A cada eleição, velhos nomes ressurgem como se o eleitor tivesse memória curta. Alguns passaram anos sem apresentar resultados expressivos. Outros tiveram mandatos discretos. Há ainda aqueles que quase não deixaram marcas concretas na vida da população, mas continuam encontrando espaço em chapas, coligações e programas eleitorais.

A democracia permite a candidatura, mas quem deveria permitir ou impedir a permanência é o eleitor.

“Achou abestado?”

Talvez seja hora de inverter a velha provocação.

Não é mais “vote no abestado”.

É o eleitor quem precisa perguntar: achou o quê?

Achou engraçado?

Achou bonito?

Achou simpático?

Achou que era um bom protesto?

Ou achou que aquele voto realmente ajudaria a melhorar a vida de quem paga imposto, enfrenta fila no hospital, espera transporte público, procura emprego, precisa de segurança e manda os filhos para uma escola pública?

Porque voto de protesto tem validade curta.

O mandato, não.

O salário, as estruturas de gabinete, a verba pública, a representação institucional e os quatro anos de poder continuam existindo depois que a piada perde a graça.

E talvez essa seja a maior lição deixada pela trajetória de Tiririca: o eleitor pode transformar uma brincadeira em quatro anos de mandato. Pode fazer isso novamente. E pode fazer pela quinta vez.

Mas também pode escolher não fazer.

No Acre, essa reflexão deveria valer para todos os candidatos que reaparecem a cada eleição como se a urna fosse um palco e o eleitor, plateia.

Política não é programa de humor.

Mandato não é temporada.

E dinheiro público não é ingresso para assistir à mesma apresentação de quatro em quatro anos.

No fim, a frase que deveria permanecer não é “Pior que tá não fica”.

É outra:

Pior que votar mal é ter a chance de escolher melhor — e desperdiçá-la.

E, desta vez, quem decide se a piada continua ou termina não é o candidato.

É o eleitor.