Polícia Civil cumpre mandados em Rio Branco para investigar suposta milícia digital; Justiça Eleitoral também apura 47 contas com mensagens semelhantes em defesa de Alan Rick e ataques a Mailza
A disputa pelo Governo do Acre ganhou, nesta quarta-feira, 16, um novo capítulo no campo das redes sociais. A Polícia Civil deflagrou a Operação Algoritmo Cidadão, investigação que apura a possível existência de uma estrutura coordenada de perfis utilizada para ataques contra o candidato ao Governo do Acre Alan Rick (Republicanos).
A operação ocorre em paralelo a uma investigação eleitoral provocada pela campanha da governadora Mailza Assis (PP), que levou à Justiça Eleitoral indícios de uma possível rede de perfis anônimos e contas aparentemente inautênticas utilizadas para promover Alan Rick e atacar a candidata.
Segundo as informações da operação, a Polícia Civil cumpre mandados de busca e apreensão em sete endereços de Rio Branco, com recolhimento de celulares, computadores e outros equipamentos que poderão ser submetidos à análise. A investigação também envolve 11 perfis, além de pedidos de suspensão de quatro contas no Instagram.
Entre os responsáveis já identificados pela investigação policial, três seriam ocupantes de cargos comissionados no Governo do Acre. Em outro caso, a ligação com a estrutura estadual apontada na apuração ocorreria por meio de uma familiar nomeada. A existência desses vínculos, porém, não significa, por si só, que os envolvidos tenham cometido irregularidades ou que exista participação de integrantes do governo na suposta estrutura investigada.
A ação é conduzida pela Delegacia de Sena Madureira, sob responsabilidade do delegado Rêmullo César Pereira de Carvalho Diniz. As equipes seguem em diligências na capital.
Investigação eleitoral já havia identificado outra conta
A operação policial ocorre enquanto a Justiça Eleitoral analisa uma representação apresentada pela campanha de Mailza e pela coligação Avança Acre no processo nº 0601041-09.2026.6.01.0000.
Na ação, a defesa sustenta que existe um padrão de atuação envolvendo perfis anônimos, páginas que simulam veículos de comunicação e contas que reproduzem mensagens semelhantes em defesa de Alan Rick e contra Mailza.
A representação ganhou novos elementos após a campanha apresentar uma gravação que, segundo os autos, registra 47 contas distintas comentando uma mesma publicação, com mensagens consideradas semelhantes entre si.
Ao todo, foram extraídas 53 capturas de tela, sendo 12 relacionadas às notificações dos comentários e outras 40 referentes às páginas dos perfis acessados durante a navegação. Sete das contas aparecem apenas na área de comentários.
Para a defesa de Mailza, o conjunto pode indicar uma atuação coordenada. A confirmação, entretanto, depende da identificação técnica dos responsáveis pelas contas e da análise dos dados que estão sob controle das plataformas digitais.
Perfis mudaram de nome ou desapareceram
Entre os perfis citados na representação estão @acrenaveia e @acreempauta2026.
Segundo os autos, o segundo perfil se apresentava com características semelhantes às de um portal de notícias e teria sido criado em julho, antes do início oficial da campanha. Posteriormente, conforme relatado à Justiça, a conta teria alterado o nome para @acredofuturo, modificado sua identidade visual e passado a operar de forma fechada.
Já o perfil @acrenaveia deixou de ser localizado na plataforma.
A defesa também relata que três advogados de Alan Rick acessaram a ação antes do desaparecimento ou transformação das contas. O registro temporal foi apresentado como elemento a ser considerado na investigação, mas não comprova que os advogados, Alan Rick ou integrantes de sua campanha fossem responsáveis pelos perfis ou tenham determinado qualquer alteração nas contas.
Caso anterior envolve perfil favorável a Alan Rick
A nova investigação também resgata um episódio anterior envolvendo o perfil @noticiasrbac, posteriormente rebatizado como @eusou10manim.
A conta, segundo a representação, apresentava-se como página informativa, mas publicava conteúdos favoráveis a Alan Rick e críticas a Mailza sem identificação clara de seus responsáveis.
No processo nº 0600634-03.2026.6.01.0000, informações fornecidas pela Meta e pela operadora Claro teriam permitido identificar a enfermeira Priscila Cordeiro Lima como responsável pela conexão utilizada na administração do perfil.



De acordo com a campanha de Mailza, Alan Rick teria sido comunicado sobre a existência da propaganda, considerada irregular em 22 de agosto. A representação afirma que o candidato não teria respondido à notificação nem feito manifestação pública de repúdio às publicações.
Esse episódio é utilizado pela defesa como referência para pedir que os novos perfis sejam submetidos a uma investigação técnica semelhante.
47 contas entram no radar da Justiça
O ponto mais recente da representação é a identificação de 47 contas diferentes que participaram dos comentários de uma mesma publicação.
Segundo os autos, algumas apresentavam características como ausência de publicações, poucos ou nenhum seguidor, nomes de usuário aparentemente aleatórios e criação recente.
As mensagens analisadas pela defesa continham manifestações de apoio a Alan Rick e críticas a Mailza, incluindo acusações relacionadas à administração pública e à vida pessoal da candidata.
A campanha sustenta que a repetição das mensagens pode indicar uma operação coordenada. Essa conclusão, porém, ainda precisa ser confirmada por dados técnicos.
Por isso, a defesa pediu à Justiça que determine à Meta a preservação dos registros digitais e a identificação dos responsáveis pelas contas, incluindo informações como números de telefone, endereços de IP, alterações de nomes de usuário e eventuais vínculos entre os perfis.
Também foi solicitado que os dados sejam confrontados com as informações obtidas na investigação anterior que levou à identificação da conexão utilizada pelo perfil @noticiasrbac.
Polícia e Justiça Eleitoral investigam lados diferentes da mesma guerra digital
A Operação Algoritmo Cidadão e a representação eleitoral não são, necessariamente, a mesma investigação. A primeira é conduzida pela Polícia Civil e mira uma possível estrutura utilizada para ataques contra Alan Rick. A segunda tramita na Justiça Eleitoral a partir de uma denúncia da campanha de Mailza sobre perfis que, segundo sua defesa, atuariam em favor do candidato e contra a governadora.
Os dois episódios, entretanto, colocam as redes sociais no centro da disputa eleitoral do Acre.
De um lado, a Polícia Civil busca descobrir quem estaria por trás dos perfis investigados, quais equipamentos eram utilizados e se existia uma estrutura organizada para produzir ou distribuir ataques contra Alan Rick.
Do outro, a Justiça Eleitoral foi acionada para preservar provas e identificar os responsáveis por dezenas de contas que, segundo a campanha de Mailza, apresentariam comportamento semelhante e mensagens repetidas em favor do candidato.



O que as investigações poderão esclarecer é se esses perfis eram administrados individualmente, se havia coordenação entre seus responsáveis, se existia financiamento ou estrutura organizada e, principalmente, se há algum vínculo comprovável entre os administradores das contas e grupos ou campanhas políticas.
Por enquanto, as suspeitas estão sob investigação e não equivalem à comprovação de autoria ou responsabilidade eleitoral ou criminal.





