Uma reflexão sobre o individualismo, a política e a humanidade das relações
Somos, queiramos ou não, testemunhas de profundas transformações que ocorrem no mundo, impulsionadas por mudanças no comportamento das pessoas. Seus efeitos são evidentes nas relações humanas, no trabalho, no consumo, nas manifestações religiosas e, especialmente, na política e nas relações de poder.
Esse processo, com a agilidade de uma aranha tecedeira, (re)teceu, em alta velocidade, as estruturas sociais e gerou outras identidades políticas, com regramentos sociais padronizados, causando polarização com setores mais progressistas. Seccionou responsabilidades e compromissos coletivos, reduzindo as relações de convivência e produção humana à figura do indivíduo autoproclamado independente. Como produto dessa nova identidade, tem-se a resistência política ao bem conviver e a autoproclamação de si mesmo como sujeito uno, que secreta suas próprias verdades, censurando-se e tateando a si mesmo em busca do prazer sob a luz da prosperidade.
Pessoas foram desenhadas — ou auto desenharam-se — para o enriquecimento, a ampliação do patrimônio, o consumo, o prestígio e o reconhecimento individual. Trata-se de um movimento de prazer “dessexualizado” que, numa leitura inspirada no pensamento foucaultiano, mira o poder. Forma-se, assim, uma geração cega aos outros, egocêntrica e focada em si mesma.
O prazer e o poder se encontram no campo do desejo, caminham juntos, coexistem e se alimentam mutuamente. O prazer pode estar na busca pelo poder, enquanto o poder, ao ser conquistado ou exercido, pode amplificar o prazer. Nesse caso, o poder não é apenas aquele exercido sobre as pessoas, mas também pode se tornar objeto de desejo e fonte de satisfação para quem o conquista ou aspira a exercê-lo. Numa leitura inspirada no pensamento freudiano, essa busca pode ser impulsionada por desejos inconscientes, dos quais o próprio sujeito não tem plena consciência nem total domínio.
Esse sentimento, que consome muitos, alastra-se pelo organismo social, descontrola pessoas e encontra guarida em determinadas comunidades neopentecostais, institucionalizadas em nome da fé e amparadas por um “deus” político, representado por líderes religiosos que cultuam bravatas como: “Foi Deus que me deu”. A fé pode inspirar tudo isso, e o sagrado é real para todos os que acreditam. Porém, brincar com a fé também se tornou um prazer nos negócios religiosos, alimentados por igrejas maldosamente descaradas, que conquistam a adesão das pessoas e influenciam seus desejos, comportamentos e visões de mundo.
Tal efeito reverbera e assume roupagens próprias nas relações familiares e nos posicionamentos políticos e ideológicos em diferentes partes do mundo. Cada manifestação traduz, a seu modo, uma dinâmica aprisionadora, na qual as paixões afloram e disseminam uma cegueira contaminante. À luz de Ensaio sobre a Cegueira (1995), de José Saramago, podemos refletir: a cegueira mais perigosa não é aquela que nos impede de ver, mas a que se alastra quando os desejos, as vaidades e a busca desenfreada pelo prazer e pelo poder nos fazem deixar de enxergar a humanidade existente no outro.
Na América Latina, assim como nas demais regiões e continentes, experimentam-se mudanças que ultrapassam as disputas ideológicas e eleitorais e alcançam a maneira como os indivíduos compreendem a vida, o sucesso, a convivência e o futuro. Nessa lógica, importa menos quem o indivíduo é no mundo e mais, a ideia frenética de como o mundo pode ser dele.
Há algo inquietante nesse processo. Sonhos, desejos e projetos de vida passaram a ser cada vez mais orientados por uma concepção de desenvolvimento e poder que associa a felicidade à lógica do crescimento econômico, à ascensão individual e à ideia de que tudo é possível, independentemente da forma e dos meios utilizados.
Os exemplos vão dos mais simples aos mais escandalosos, como a declaração: “Pastor, eu não fazia ideia que era este o Banco do Dani etc. e tudo, senão, obviamente eu não teria postado” (Nikolas Ferreira, ao se referir a uma conversa com o pastor André Valadão, em episódio que interpreto como uma relação politicamente incestuosa de conveniências e prazer pelo poder envolvendo Daniel Vorcaro).
Outro exemplo, ainda mais grave: “Tem que ponhar veneno na água, tem que matar essas pragas na água” (ameaça verbal contra indígenas, registrada em áudios de servidores municipais de Tacuru, Mato Grosso do Sul, após o segundo turno das eleições presidenciais de 25 de outubro de 2026).
Embora distintos em natureza e gravidade, esses episódios evidenciam, na perspectiva aqui apresentada, um arquétipo comportamental no qual tudo parece permitido para garantir os próprios interesses, independentemente dos princípios éticos e da humanidade do outro. Relendo George Orwell, os referenciais políticos e sociais que representam papéis na dinâmica do poder, da manipulação e da perda de ideais, esta animalização do ser, nos mais terríveis e descontrolados instintos.
A promessa de enriquecimento e prosperidade, associada ao desejo de poder, passou a ocupar o centro das aspirações humanas, muitas vezes desconsiderando quaisquer princípios de humanidade e responsabilidade coletiva pela construção de felicidades e de uma postura fraterna e resiliente. Tudo em nome da prosperidade, irmã da meritocracia, guiada e sustentada pela invenção de falsos líderes e falsos religiosos que afirmam agir a mando de um “deus” (este eu não sigo).
Nesse cenário, algumas vertentes religiosas, especialmente do neopentecostalismo, contribuíram para fortalecer a associação entre fé, prosperidade material com conquista individual. Não se trata de questionar a legitimidade da experiência religiosa, mas de refletir sobre quais são os riscos de a espiritualidade servir como instrumento de justificação do enriquecimento e da suposta superioridade pessoal. Nessa lógica, os ricos, bons e felizes nadam na “lagoinha” e em outras “fossas”.
Quando ‘as conquistas individuais’ passam a ser apresentadas como recompensa divina ou como resultado exclusivo do esforço pessoal, corre-se o risco de enfraquecer a consciência de que somos seres interdependentes e de que nenhuma sociedade se constrói verdadeiramente sem cooperação, solidariedade e compromisso com o bem comum.
O individualismo, assim, vai ocupando o espaço da coletividade. O outro deixa de ser reconhecido como alguém com quem compartilhamos a existência e passa a ser visto como concorrente, obstáculo ou, simplesmente, alguém que não conseguiu alcançar o mesmo lugar.
Se tudo isso causa sofrimento às vidas comuns, desiludidas e fragilizadas, há ainda as tristezas momentâneas provocadas pelas dores da traição alheia (incluindo o popular “chifre”). Nesse mesmo universo, porém, oferecem-se “músicas com agrotóxicos”, regadas a cerveja e poeira, nas festas, nos torneios e entre vendedores de arrobas de gado… E o gado? Encanta-se com as músicas daqueles que sentem prazer em enriquecer com o mesmo dinheiro que visita a igreja.
Remendam-se discursos em emendas parlamentares, enquanto interesses se entrelaçam em redes urdidas por interesses duvidosos. À luz de Sapiens, de Yuval Noah Harari, relembro a triste capacidade histórica da humanidade de construir mecanismos de exploração, justificados por narrativas que legitimam interesses particulares, organizam relações de poder e transformam privilégios em práticas socialmente aceitas.
É nesse cenário que Nova Belém, em Minas Gerais, município de 3.151 habitantes, segundo o Censo de 2022, “encastela” um show de R$ 900 mil, equivalente a aproximadamente R$ 286 por habitante. Enquanto centenas de famílias dependem do Bolsa Família. Pergunta-se: há uma “Cibalena-A” disponível para quem procura a unidade de saúde? Estão as necessidades essenciais atendidas com o mesmo entusiasmo dedicado ao espetáculo? E aqueles que contam os poucos reais para comprar uma sandália de borracha, como participam dessa festa de prosperidade? “Ana de Deus”, que contraste! Entre palcos, aplausos e a moral: quem verdadeiramente se beneficia quando a festa custa tanto e o bem comum precisa disputar espaço com o prazer ostentação?
É esse estranho ambiente econômico, religioso e carnavalizado, marcado pelas máscaras bakhtinianas, que estrutura mudanças, forja identidades e favorece a afirmação de verdades absolutas por meio de novos dogmas sociais. É esse mesmo ambiente que precisamos compreender sob outras óticas, à luz das transformações políticas vividas no Brasil.
O fenômeno do bolsonarismo, em minha interpretação, não pode ser analisado apenas como uma expressão eleitoral ou como resultado da ascensão de uma liderança política. Ele representa uma força de transformação na maneira como se compreendem a autoridade, a liberdade, o patriotismo, os valores sociais e as relações humanas.
O sentimento de pertencimento nacional, que deveria estar associado à defesa da soberania, ao respeito às instituições e à construção de um país para todos, passou a ser esvaziado por discursos que contrariam esses princípios. Nesse contexto, em determinados momentos, toleram-se práticas de divisão social e de negação de direitos.
Num piscar de olhos, tão rapidamente quanto a passagem de uma guêpe (vespa) com seu ferrão (para não falar em time gap), o patriotismo bolsonarista se apropria do momento e lança projetos políticos excludentes. Nesse movimento, surge um risco: apagar de vez o sentimento de responsabilidade coletiva e transformar o patriotismo em instrumento de separação entre aqueles que se consideram legítimos representantes da nação, movidos pelo prazer do poder, e aqueles que passam a ser vistos, insanamente, como adversários — inclusive os que dependem de um mísero salário para sobreviver.
A busca pela prosperidade individual se sobrepõe à ética, à justiça social e à dignidade humana. Enriquecer deixa de ser apenas uma possibilidade legítima de realização pessoal e passa a representar, para alguns, uma condição de superioridade sobre os demais, como se essa suposta superioridade constituísse uma corrente ideológica, uma filosofia de vida.
Nenhuma sociedade pode sustentar seu futuro na crença de que vencer significa estar acima do outro, com açoites de chicotes que estalam sons ultraconservadores e correntes que prendem um homem preto, sob o comando de mãos brancas ungidas de lama intelectual. O desenvolvimento e a capacidade de viver não se medem pela riqueza acumulada nem pela caminhonete que corta a estrada, transportando as deformadas sementes transgênicas. A sociedade se sustenta pela capacidade de garantir dignidade, oportunidades, direitos e condições de vida para todas as pessoas.
Os diferentes universos apresentados aqui e tantos outros não caminham isoladamente. Amarram-se como fios de uma mesma teia, na qual interesses econômicos, discursos religiosos, manifestações culturais e espetáculos digitais se encontram e, por vezes, se alimentam mutuamente.
A prosperidade é anunciada como promessa divina, celebrada nos palcos, exibidas nas caminhonetes e reproduzida nas redes sociais como símbolo de vitória e superioridade. Não se trata de condenar a fé, a cultura ou a produção econômica, mas de compreender como determinadas práticas se apropriam dessas expressões, cultuam símbolos de poder e objetos de desejo. É nessa teia de conveniências, prazeres e interesses que se forjam comportamentos, naturalizam-se desigualdades e se constroem identidades que ultrapassam o cotidiano e alcançam o corpo da política.
Com esse pensamento, reconheço que as recentes movimentações no Brasil, contrárias à peste do “prazer em ser do poder”, abriram a janela de uma nova onda: a reconstrução da consciência coletiva voltada ao enfrentamento de práticas autoritárias que, em minha interpretação, assumem feições fascistas. Um fascismo que se traveste de fé quando instrumentaliza a religião, ocupa palanques e palcos sertanejos e ganha visibilidade nas performances de políticos tiktokers, que defendem regras militares que sequer conhecem.
As eleições brasileiras de 2026 foram ambiente dessas manifestações e, inclusive, de experiências que sinalizam uma nova organização social. Abriu-se, portanto, uma oportunidade para refletir sobre os caminhos que desejamos construir. Mais do que discutir vencedores e vencidos, esse movimento nos leva a questionar que sociedade estamos formando e que valores queremos transmitir às próximas gerações.
A reflexão que trago nasceu no Brasil e não deve ficar restrita, como não está. Ela dialoga com inquietações presentes em diferentes países, especialmente na América Latina e Europa, onde as desigualdades, os conflitos ideológicos e as disputas pelo prazer de ter poder continuam desafiando a convivência democrática.
A onda que começou no Brasil, simbolizada politicamente pelo gesto em forma de “L”, agora ganha uma nova dimensão simbólica com a expressão Liga Universal de Luta Antifascista – L.U.L.A. e deve ser compreendida para além de qualquer identificação partidária, com um propósito humano e humanizador. Nessa perspectiva, traduz a esperança e a retomada do sentido humano da política. Mais importante do que a letra ou a liderança que ela representa é a possibilidade de transformar esse símbolo em uma convocação à solidariedade, à justiça e à reconstrução dos vínculos sociais.
Não se trata de exigir que todos pensem da mesma maneira, nem de estabelecer que a humanidade deva escolher exclusivamente entre a esquerda e a direita. Trata-se de reconhecer que nenhuma orientação política deveria estar acima da dignidade humana, nem justificar desejos extremos ou a transgressão de limites éticos.
Importa defender o crescimento econômico sem abandonar a justiça social. É possível valorizar o mérito individual sem ignorar as desigualdades e as diferenças. É possível prosperar sem explorar, competir sem humilhar e exercer a liberdade sem desrespeitar os direitos do outro.
A transformação começa quando se deixa de perguntar apenas o que se pode conquistar para o prazer individual e se passa a perguntar o que se pode construir para a humanidade, em um claro movimento de retorno à esperança.
Talvez esse seja o grande desafio do nosso tempo: recuperar a capacidade de sonhar coletivamente.
O Brasil pode contribuir para essa reflexão, assim como pode aprender com as experiências de outros povos. A América Latina, marcada por histórias de resistência, tem condições de participar desse movimento de reconstrução dos valores.
Que essa onda fortaleça e que se alastre para outros países, outras lideranças, outras comunidades e, sobretudo, outras consciências. Tecendo como a aranha novos cotidianos e outras artes de viver. Que ela ultrapasse as fronteiras partidárias, religiosas a serviço da vida.
Que a onda que começou no Brasil seja, acima de tudo, uma onda de reencontro com a humanidade. Um movimento que nos convide a substituir a arrogância pela compreensão, a indiferença pela solidariedade, a disputa insana pela cooperação e o desejo de superioridade pelo compromisso com o bem comum.
Que, com a L.U.L.A., o Brasil deixe de exportar o “agrocrime”, suavizado por músicas sutilmente tóxicas, por falsos profetas de um deus de fantasia e por lives de conteúdo falso; deixe de ser visto apenas como terra rara e passe a exportar o bem esquecido: a esperança.
Teixeira, Evandro L.
Professor e Gestor Público
Pós-graduado em Linguagens e Identidades pela UFAC




