O que é o amor, afinal, senão uma dor antiga e persistente, engenhosamente maquiada por surtos breves de dopamina, o abraço morno da ocitocina, a tranquilidade ofertada pela serotonina e todo esse arranjo neuroquímico que o corpo inventa para convencer a razão de que a vida vale a pena? Se o manto lírico for retirado, resta o diagnóstico de uma febre: o organismo anestesiado pela promessa de plenitude enquanto caminha, de olhos bem abertos, para a fatura inevitável do sofrimento.
É comum que o ser humano passe longos períodos entrincheirado na solidão. Chama-se a isso de busca por paz, mas a honestidade obriga a reconhecer o medo, a prudência fria de quem já conhece a gravidade das próprias quedas e prefere o silêncio seguro de uma armadura ao risco do abismo. No entanto, existir exige pele exposta – ou, como diria Guimarães Rosa, “o que a vida quer de nós é coragem”. Há momentos em que o peito se desarma e a entrega acontece sem meias medidas, traduzindo o afeto na linguagem mais concreta que existe — seja nos atos de serviço, no cuidado miúdo do dia a dia, ou naqueles encontros onde a pele de contraste e brancura — de “copo de leite” — encontrava na exaltação do desejo a plenitude exata de um encaixe febril, intenso e profundamente excitante.
E, ainda assim, basta por vezes um breve intervalo de tempo para que a velha anatomia do desencanto reapareça com a mesma pontualidade de sempre.
É aí que a dúvida retorna, amarga e incisiva: por que a espécie humana insiste? Seria o amor apenas um estelionato biológico, um vício em que a dose de alívio custa o preço de uma derrocada emocional? A tentação imediata costuma ser o ressentimento — o impulso raso de julgar que se deu pérolas aos porcos. Mas a maturidade salva o indivíduo da pequenez. O afeto genuíno que se oferece não é investimento financeiro esperando juros; é apenas o reflexo do caráter de quem o doou. Cobrar retribuição por ter sido generoso seria o equivalente a transformar a solidariedade em boleto bancário. Porém, há de se reconhecer a importância da reciprocidade. Ainda que tenha equivalência desproporcional. Mas que haja.
A dor que surge desses encontros não vem de falhas de caráter, nem da ilusão de que alguém deva algo a outrem. Pessoas inteiras carregam suas próprias e legítimas belezas. A tragédia raramente é a maldade; quase sempre é a falta de sintonia. É o desespero manso de perceber que dois seres de boa intenção podem se aproximar de peito aberto e, ainda assim, soar como duas orquestras magníficas executando partituras incompatíveis no mesmo recinto. O som de cada instrumento é nobre, mas o resultado final é apenas o ruído do desencontro.
Resta a constatação de que a doação afetuosa diz respeito apenas a quem a pratica, e não a quem a recebe. Contudo, permanece a dúvida suspensa no ar, sem que se saiba se a história realmente chegou ao fim ou se o que falta é apenas a coragem desesperada de atravessar a dor até que ela, enfim, decida se transformar em amor.
E que esse amor, mais cedo ou mais tarde, nos encontre, em toda a sua plenitude.
*Tácio Júnior é jornalista, pela Universidade Federal do Acre, e acadêmico de sistemas para internet, no Instituto Federal do Acre.




