Rio Branco, AC, 17 de setembro de 2026 18:30
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Do santinho à petição: a eleição acreana descobriu que também se faz campanha no tribunal – ansioso pelo 4 de outubro

A eleição para o Governo do Acre ainda tem caminhada, bandeiraço, discurso e promessa de sobra, mas uma parte importante da disputa já mudou de endereço: saiu das ruas e foi parar nos tribunais.

Nas últimas semanas, candidatos e coligações recorreram à Justiça para questionar pesquisas, propagandas, conteúdos publicados nas redes sociais e até elementos aparentemente banais da campanha. O resultado é uma eleição em que, além de disputar o voto do eleitor, os grupos políticos disputam também os limites do que pode ser dito, exibido e impulsionado.

Machado de Assis, que acompanhou de perto as transformações políticas do Brasil entre o Império e a República, tinha uma maneira particularmente aguda de observar os homens e as instituições. Em Esaú e Jacó, a política aparece menos como um mundo de grandes certezas e mais como um território de interesses, disputas e contradições. É uma chave interessante para olhar a campanha acreana: por trás dos discursos, há uma disputa concreta pelo poder.

Um exemplo da temperatura da disputa foi a representação envolvendo um gesto feito por Mailza Assis e Jéssica Sales durante a campanha, questionado judicialmente pela coligação de Alan Rick. O episódio mostra como, em uma eleição cada vez mais profissionalizada, até detalhes de imagem podem ganhar dimensão jurídica.

Mais relevante foi a batalha em torno da cifra de R$ 51 milhões, utilizada em propaganda de Alan Rick para se referir a contratos investigados na área da Educação. O caso colocou novamente uma questão essencial no centro da campanha: uma investigação não equivale a uma condenação, e uma cifra sob apuração não pode ser apresentada automaticamente como dinheiro comprovadamente desviado.

É justamente nessa fronteira entre crítica política e afirmação factual que a Justiça Eleitoral passa a atuar.

E aqui entra Lima Barreto, talvez um dos escritores brasileiros que mais tenha enxergado a política para além da solenidade dos discursos. Sua obra foi marcada pela crítica à burocracia, às aparências e às instituições de seu tempo, sempre com atenção especial às desigualdades e aos mecanismos de poder.

A eleição entrou de vez nas redes

O ambiente digital tornou a disputa ainda mais complexa. Perfis anônimos, páginas que se apresentam como veículos de informação e conteúdos produzidos para atacar adversários passaram a fazer parte do cotidiano eleitoral.

Nesta quarta-feira, 16, a Operação Algoritmo Cidadão elevou o nível dessa disputa. A Polícia Civil cumpriu seis mandados de busca e apreensão em Rio Branco, apreendeu equipamentos eletrônicos e ouviu quatro pessoas, posteriormente liberadas. Segundo informações divulgadas sobre a investigação, a operação apura suspeitas de crimes eleitorais relacionados à disseminação de notícias falsas e a ataques contra Alan Rick, além de possíveis vínculos de investigados com a estrutura do governo estadual. Os candidatos não são alvos da operação, e a eventual participação direta da governadora Mailza Assis não foi confirmada pela Polícia Civil.

É importante separar investigação de conclusão. A presença de pessoas eventualmente ligadas à estrutura pública entre os investigados não significa, por si só, participação de candidatos ou do governo nos fatos apurados. Essa é justamente uma das respostas que a investigação ainda precisa produzir.

E as propostas?

Enquanto advogados protocolam petições, equipes jurídicas acompanham decisões e candidatos respondem a representações, o eleitor continua diante de problemas muito mais concretos: segurança, saúde, educação, infraestrutura, emprego, produção rural, saneamento e a capacidade financeira do Estado para sustentar as promessas feitas durante a campanha.

Talvez seja aí que esteja a parte mais importante desta eleição.

Lima Barreto desconfiava das distâncias entre aquilo que as instituições prometiam representar e aquilo que efetivamente entregavam. Mais de um século depois, a pergunta permanece atual, embora tenha mudado de cenário: em meio a vídeos, pesquisas, acusações, algoritmos e decisões judiciais, o que realmente está sendo oferecido ao eleitor?

A Justiça pode decidir se uma propaganda ultrapassou os limites legais, se determinado conteúdo deve ser retirado ou se uma campanha tem direito de resposta. Mas não cabe ao tribunal escolher o projeto de governo que o Acre levará para os próximos quatro anos.

Essa escolha continuará sendo política — e será feita pelo eleitor.

Alan Rick, Mailza Assis, Tião Bocalom, Thor Dantas, Eudo Raffael e Dr. Luizinho apresentam projetos diferentes para o Estado e têm o direito de disputar espaço, criticar adversários e defender suas ideias dentro das regras eleitorais.

O desafio é fazer com que a eleição não seja lembrada apenas pelas disputas judiciais, pelos ataques nas redes ou pelas acusações trocadas entre campanhas.

Machado de Assis talvez ofereça a melhor companhia literária para este momento: observar a política exige olhar não apenas para aquilo que os personagens dizem, mas também para aquilo que fazem, para os interesses que movimentam a disputa e, sobretudo, para aquilo que permanece depois que o discurso termina.

No fim das contas, uma eleição não deveria ser medida apenas pela quantidade de processos, representações ou ataques virtuais que produz, mas pela qualidade das escolhas que oferece ao cidadão.

A Justiça continuará nos autos. A campanha continuará nas ruas. E, no dia 4 de outubro, a decisão estará nas mãos do eleitor.