Há um curioso contraste nas eleições de 2026. Enquanto setores da política brasileira cultivam cada vez mais a presença de outsiders e o discurso da renovação, nomes que construíram suas carreiras décadas atrás voltam às urnas para disputar mandatos. São políticos que já governaram estados, ocuparam ministérios, comandaram partidos e passaram décadas no Congresso Nacional.
A chamada velha guarda está de volta.
Aos 82 anos, Cristovam Buarque tenta retornar ao Congresso, agora como candidato a deputado. Ex-governador do Distrito Federal, ex-senador e ex-ministro da Educação, leva para a campanha uma trajetória marcada principalmente pela defesa da educação e por sua forte atuação no debate público nacional.
Um dos nomes mais conhecidos da política amazonense, Arthur Virgílio Neto também tenta voltar à Câmara. Conhecido por ser um exímio orador, o diplomata, ex-senador, ex-prefeito de Manaus e antigo protagonista da política nacional, busca novamente um mandato parlamentar depois de décadas de atuação nos principais espaços da política brasileira e amazonense.
Também pelo Amazonas, o ex-ministro dos Transportes, ex-senador e ex-prefeito de Manaus, Alfredo Nascimento também está de volta à disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados. Agora tenta reconstruir sua presença no Congresso e transformar uma longa trajetória política em novo capital eleitoral.
No Paraná, o ex-governador e ex-senador, Roberto Requião, 85 anos, tenta retornar ao Congresso como deputado federal. Pertencente a uma geração que construiu sua identidade política antes das redes sociais, agora precisa dialogar com um eleitorado habituado a outras formas de comunicação.
Pernambucano de origem e um dos nomes históricos da esquerda democrática brasileira, Roberto Freire também decidiu voltar à disputa eleitoral. Ex-senador por Pernambuco e ex-deputado federal por São Paulo, Freire agora é candidato a deputado federal pelo DF. Sua trajetória atravessa diferentes fases da política brasileira e inclui participação na resistência à ditadura e na solidificação das instituições democráticas. Aos 84 anos, seu retorno às urnas representa mais um exemplo de uma geração que, depois de décadas de vida pública, tenta novamente ocupar espaço no debate político.
Depois de 11 mandatos como deputado federal, o ex-ministro Miro Teixeira, 81, encontrou uma forma diferente de permanecer no jogo. Pelo Rio de Janeiro, disputa a condição de primeiro suplente de Pedro Paulo na chapa ao Senado. É uma passagem da linha de frente do Parlamento para uma posição de retaguarda, mas ainda próxima do centro do poder.
Há ainda um outro grupo entre esses veteranos: políticos que, embora já ocupem mandatos, também decidiram colocar sua longevidade eleitoral à prova, disputando a reeleição ou outros cargos.
Nesse grupo, talvez nenhum outro caso seja tão simbólico quanto o de Eduardo Suplicy. Aos 85 anos, tenta a reeleição para a Assembleia Legislativa de São Paulo. Ex-senador por três mandatos e uma das figuras históricas do PT, transformou a defesa da renda básica em sua principal bandeira política. Em 2022, foi o deputado estadual mais votado do país. Sua permanência demonstra que longevidade também pode se converter em identidade eleitoral.
Na mesma direção, pelo Rio de Janeiro, aparece Benedita da Silva. Aos 82 anos, a deputada federal busca uma vaga no Senado e também integra essa geração de políticos de longa trajetória. Ex-governadora e ex-senadora, Benedita construiu uma carreira marcada pela atuação política e social desde os anos 1980. Sua permanência no cenário eleitoral reforça a presença de lideranças históricas que continuam disputando espaço na política institucional.
Em São Paulo, outro exemplo dessa longevidade é o de Luiza Erundina. Deputada federal, aos 91 anos, é outro nome que atravessa gerações. Ex-prefeita da capital paulista, construiu uma trajetória de décadas na política brasileira, especialmente no campo progressista. Sua presença entre os veteranos evidencia que a renovação das instituições convive, ainda, com figuras que ajudaram a construir a própria história recente da democracia brasileira. Agora ela disputa uma vaga na Alesp.
Apesar das diferenças ideológicas e regionais, esses personagens têm algo em comum: já conheceram o poder e agora tentam permanecer ou voltar a ele.
Para alguns, o passado funciona como patrimônio político: são décadas de relações, alianças e conhecimento das instituições. Para outros, justamente essa longa exposição pode representar um problema: o eleitor também conhece seus erros, controvérsias e contradições.
A questão, portanto, não é apenas o que fizeram, mas o que têm a oferecer agora.
A volta dos veteranos acontece em um momento político radicalmente diferente daquele em que construíram suas carreiras. A televisão e os grandes palanques perderam espaço para Instagram, TikTok, vídeos curtos e comunicação direta. Novas lideranças surgem com enorme velocidade, muitas delas sem qualquer passagem pela política tradicional.
As eleições de 2026 parecem produzir uma convivência entre gerações: de um lado, políticos formados no ambiente institucional do século passado; de outro, lideranças moldadas pelas redes sociais e pela política de likes.
No fundo, a disputa desses veteranos coloca uma pergunta ao eleitor: quanto vale uma longa história política em um país que mudou tão rapidamente?
A resposta sairá das urnas.
Alguns poderão voltar ao poder; outros descobrirão que seu ciclo chegou ao fim. A eleição não julgará uma geração inteira, mas cada trajetória individualmente.
Não será a idade que decidirá o destino desses políticos. Será a capacidade de convencer o eleitor de que o passado ainda tem lugar no futuro. Ou não.
Romisson Santos é cronista





