Rio Branco, AC, 12 de setembro de 2026 13:14
Home / Artigos / A Taça de Cristal e a Poeira da Noite

A Taça de Cristal e a Poeira da Noite

​O mormaço da tarde em Rio Branco ainda queimava o calçamento quando a campainha tocou. Fui atender sem pressa, esperando só mais uma pizza de início de noite. O que encontrei na porta, no entanto, me tirou o chão.

​Era um rapaz jovem, desmontando de uma bicicleta surrada. Ele não respirava; ele arfava. A camisa de malha estava colada ao peito pelo suor, o rosto vermelho pelo esforço da pedalada sob o calor sufocante e, no fundo dos olhos, havia um pavor que me deu um nó no estômago. Um pavor de quem viu a morte de perto.

​— Pelo amor de Deus, me desculpe, senhor — ele pediu, com a voz miúda, a mão tremendo, suja de graxa, ao me estender a caixa quente. — A corrente da bicicleta caiu no meio do trânsito, deu um trabalho danado para colocar no lugar… Me atrasei trinta minutos, fiquei morrendo de medo. Nessas situações não tem perdão, o senhor sabe.

​Tentei dizer que estava tudo bem. Falei para ele respirar, que trinta minutos não mudavam nada, que a pizza estava ótima. Mas ele já nem ouvia. Pediu desculpas de novo, subiu na sela e voltou a dobrar os joelhos na escuridão da rua, correndo para entregar mais uma caixa por uma mísera taxa antes que o aplicativo cortasse o seu sustento.

​O medo dele não era de mim. Era da máquina. O rapaz da bicicleta sabe, no fundo da carne, que para quem está aqui embaixo a régua do mundo é cega, dura e sem piedade. Um deslize no relógio e a sentença é o olho da rua.

​Fechei a porta e fui para a mesa. Servia uma fatia de pizza no prato quando a náusea subiu até a garganta.

​O celular ao lado não parava de vibrar.

​Eram as redes sociais jorrando o espetáculo do dia. Um áudio vazado do círculo de Daniel Vorcaro — o banqueiro agora preso — escancarando o fluxo de favores e repasses milionários que irrigam gabinetes e bancadas. Mimos de luxo a gabinetes influentes, facilidades para políticos de todas as posições e bancas familiares de advocacia engordando com contratos milionários de quem tem causa vital no tribunal.

​A relação que rasga sem pudor qualquer decoro moral é sustentada por institutos mantidos com o financiamento pesado dos próprios interessados. Afinal, quem é que acredita que ele é a exceção? Vorcaro é apenas o aprendiz apressado no meio de tubarões antigos que fazem exatamente o mesmo, só que sem deixar o áudio vazar.

​E, no topo disso tudo, a farsa que se repete a cada ano na Europa. De dia, o seminário elegante para discursar sobre o Estado de Direito diante das câmeras. De noite, banquetes reservados onde ministros, banqueiros e os presidentes da Câmara e do Senado brindam com vinhos raros a intimidade que o cidadão comum jamais terá.

​Mudam-se as siglas, trocam-se os relatores, mas a gramática do balcão continua a mesma. Os milhões saltam de um lado para o outro na velocidade de um clique, deixando no ar aquela desconfiança venenosa: que garantia o país tem de que a justiça é feita pela lei, e não pela conveniência da mesa?

​Olhei para a pizza esfriando, olhei para a tempestade de vídeos na tela e pensei no garoto da bicicleta. A pergunta não me larga desde então: o que sente o juiz da comarca do interior do Acre, o operador do Direito que acorda cedo na poeira, toma um café frio e passa o dia devorando pilhas de processos corriqueiros, conflitos locais e as pequenas urgências da vida comum?

​O que sente o homem do chão de fábrica quando olha para a tela e percebe que a régua só corta a carne de quem pedala, enquanto lá em cima ela vira brinde em taça de cristal? Não dá uma desolação medonha? Não dá a sensação de que a estrutura inteira é um grande teatro para proteger os privilégios dos mesmos de sempre?

​Se Luíz Gama caminhasse hoje pela calçada de Rio Branco, no meio dessa poeira quente que gruda na pele, ele não precisaria ler as notícias da alta corte. Bastava olhar para aquele garoto na bicicleta.

​Gama reconheceria aquele olhar de longe. É o mesmo pavor que viu nos olhos do negro Lourenço em 1831, quando o tribunal do Império rasgou a lei no papel só para não contrariar os negócios dos barões do café. O tempo passou, o figurino mudou, mas a engenharia da dor é a mesma: para quem está no topo, a compreensão, a conversa de pé de ouvido e a taça de champanhe; para quem está no chão, a lâmina seca e o pavor de não ter o que comer amanhã.

​Fiquei ali, com o prato na mão, pensando na luz fraca da lanterna da bicicleta sumindo na escuridão da rua. O menino continuava pedalando, dobrando o corpo sobre o guidão, engolindo a poeira da noite, sem saber se amanhã o aplicativo vai deixar ele trabalhar.

​Olhei para a noite silenciosa do outro lado da janela e pensei que a escravidão neste país nunca acabou. Ela só tirou o ferro da canela e colocou o medo na alma. E a gente, do lado de cá da porta, assiste ao teatro dos poderosos com a pizza esfriando na mesa e a náusea entalada na garganta.

​Emylson Farias
Delegado de Polícia