Rio Branco, AC,4 de julho de 2026 13:22
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Futebol de Grife com Suor Alheio

Dizem que um jogo de Copa do Mundo é só um jogo, mas quem diz isso claramente não entende de espelhos. O gramado, no fundo, é onde o mundo se reflete sem disfarces.

​Olho para a nossa Seleção e enxergo o próprio Brasil, um país feito de cicatrizes profundas, herdeiro da tragédia dos tumbeiros e de um passado escravocrata que ainda ecoa, mas que acabou por desenhar sua identidade na mistura. Como o historiador Luiz Felipe de Alencastro demonstra na sua grande obra O Trato dos Viventes, tentar entender o Brasil olhando apenas para a Europa é um equívoco brutal. Nossa formação se deu no Atlântico Sul: o Brasil é África, é Angola, é a semente que brotou da dor e virou ginga. Quando a nossa Seleção joga, ela joga com o que é nosso. Nunca fomos império colonizador; fomos o laboratório de nós mesmos. Nossas cinco estrelas no peito foram pintadas com a legítima prata da casa.

​Do outro lado do Atlântico, a história ganha os contornos de uma França que entra em campo como a grande favorita, carregando a promessa soberana de quem “vai atropelar”. Mas basta olhar para quem realmente corre sob os holofotes — como Dembélé, Barcola, Doué, Camavinga ou o artilheiro Mbappé — para que o questionamento se imponha: onde está o francês ali? Não se enxerga a herança dos iluministas, do romantismo de Victor Hugo ou do realismo de Flaubert. Eles são herdeiros da ancestralidade africana, filhos de uma diáspora que cedeu a Paris a tração, a força muscular e a ginga necessária para que a França entendesse como vencer. Foi assim que, tardiamente, operando milagres desde os tempos de Zidane, eles ergueram sua primeira Copa em 1998 — quando o Brasil, por sua vez, já carregava a glória do tetra muito lá atrás, conquistada puramente com o próprio chão.

​Essa inclusão nos gramados, contudo, é pura conveniência. A verdade nua e crua é que a França nunca rompeu o cordão umbilical do pacto colonial e continua, até hoje, explorando as riquezas de suas antigas colônias. Onde essa exploração não gera dividendos no placar, o desprezo continua absoluto. A França que hoje aplaude seus craques de origem africana é a mesma que asfixiou e destruiu o Haiti. Paris pune até hoje a audácia daqueles que ousaram fazer a revolução e se libertar. Do Haiti, a Europa não quer ninguém; lá, as portas permanecem trancadas porque aquela realidade devastada não oferece os craques que eles cobiçam para lhes dar uma Copa. Se oferecesse, o suor haitiano estaria diluído na mesma engrenagem. O que se vê em campo, hoje, continua sendo um empacotamento com a grife de Paris: a França imperialista veste os filhos dessa diáspora com o manto azul para tentar manter a pose de soberana. Sem a cor, a dança e a alma africana, o futebol deles seria um deserto.

​É aí que a gente precisa extirpar de vez o fantasma que nos assombra. Nelson Rodrigues falava do nosso “complexo de vira-lata”, essa mania feia de achar que o que vem da Europa é sempre maior, mais bonito e intransponível.

​Sejamos realistas e humildes: nós sabemos que o momento atual não é dos melhores. A nossa Seleção hoje vive em baixa, o futebol anda meio sem brilho, tropeçando nas próprias pernas e nos fazendo passar raiva. Olhamos para o campo e bate aquela saudade dos tempos de ouro. Mas é justamente na fraqueza que a gente lembra de onde veio. A França pode ter a pose, a grife e o favoritismo da vez, mas o Brasil é o samba, é o improviso, é a nossa própria cara. Nós não precisamos colonizar o mundo para colher nossa matéria-prima; o talento que nos faz campeões nasce espontâneo nos nossos próprios terreiros e quintais.

​Podemos estar por baixo hoje, mas fomos nós que fomos lá e costuramos cinco estrelas no peito usando apenas o sangue, o talento e a resiliência da nossa gente.

​Mário Quintana dizia que “o passado não corre atrás de nós, ele caminha conosco”. No caso deles, o passado colonial corre rápido, dribla e salva a pátria francesa. No nosso caso, o passado nos fez gigantes por natureza. Diante de qualquer arrogância europeia, o Brasil entra em campo lembrando que, na crise ou na glória, com todas as nossas dores, o nosso futebol é puramente nosso. E isso nenhum império consegue comprar.

​Emylson Faria – Delegado de Polícia