Rio Branco, AC,28 de junho de 2026 13:38
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“Não dê o peixe, ensine a pescar”: o desafio de um Brasil que ainda não conseguiu romper o ciclo da dependência

Poucos temas provocam debates tão intensos no Brasil quanto os programas de transferência de renda. Para seus defensores, eles representam uma das mais importantes ferramentas de combate à pobreza e à desigualdade social. Para seus críticos, entretanto, o modelo assistencial brasileiro corre o risco de deixar de ser uma política de emancipação para se transformar em um mecanismo permanente de dependência econômica e política.

A discussão está longe de ser simples. Exige equilíbrio, reconhecimento dos resultados alcançados e disposição para enfrentar uma pergunta que atravessa diferentes governos: até que ponto o Estado deve sustentar o cidadão e em que momento sua prioridade deve ser criar condições para que ele caminhe com autonomia?

Ao contrário do que muitos imaginam, o Bolsa Família não nasceu do zero. Sua origem remonta ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, quando o país começou a estruturar uma rede nacional de proteção social.

Naquele período foram criados programas como o Bolsa Escola, que condicionava o benefício à frequência escolar das crianças; o Bolsa Alimentação, voltado para gestantes e famílias em situação de vulnerabilidade; o Auxílio-Gás, destinado a compensar o custo do botijão de cozinha; além do Cadastro Único (CadÚnico), instrumento que passou a identificar e organizar as informações das famílias de baixa renda.

Essas iniciativas estabeleceram a base da política de transferência de renda brasileira.

Foi no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que esses programas foram reunidos em uma única política pública. Em outubro de 2003, por meio da Medida Provisória nº 132, posteriormente convertida na Lei nº 10.836, nasceu oficialmente o Bolsa Família. A unificação reduziu burocracias, ampliou o número de beneficiários, fortaleceu o controle das informações e transformou o programa em uma das principais marcas da gestão petista.

Desde então, independentemente da orientação ideológica dos governos, a transferência de renda consolidou-se como uma política de Estado. Durante o governo Jair Bolsonaro, o programa foi substituído pelo Auxílio Brasil, com aumento dos valores pagos às famílias. Já no terceiro mandato de Lula, o Bolsa Família foi retomado e ampliado, incorporando novos benefícios e iniciativas como o Programa Pé-de-Meia, que oferece incentivo financeiro para estudantes do ensino médio permanecerem na escola e concluírem os estudos.

Os resultados sociais dessas políticas são inegáveis. Milhões de brasileiros deixaram a extrema pobreza, tiveram acesso à alimentação, ampliaram a frequência escolar e encontraram uma rede mínima de proteção em momentos de crise econômica. Em muitas cidades, especialmente nas regiões mais pobres, esses recursos representam a diferença entre a insegurança alimentar e a sobrevivência.

O desafio começa quando a assistência deixa de ser temporária.

Toda política social nasce para proteger quem enfrenta uma situação de vulnerabilidade. Mas sua finalidade deveria ser criar condições para que essa família, em algum momento, não precise mais depender do benefício. Quando essa transição não acontece, instala-se um debate legítimo sobre os limites do assistencialismo.

A conhecida metáfora do peixe e da vara ilustra bem essa discussão. Distribuir o peixe pode ser indispensável diante da fome. Ensinar a pescar é o caminho para a autonomia. No Brasil, porém, o cenário parece mais complexo. O Estado distribui renda, oferece cursos de qualificação, incentivos ao empreendedorismo e programas de capacitação. Ainda assim, milhões de brasileiros continuam sem conseguir romper o ciclo da dependência. Parte dessa dificuldade decorre da falta de oportunidades reais no mercado de trabalho; outra parte é atribuída por alguns analistas à acomodação gerada pela permanência prolongada nos programas sociais. Trata-se de um debate aberto, sem consenso.

Essa discussão ganhou novos contornos com o lançamento do Programa Pé-de-Meia. Ao oferecer incentivo financeiro para estudantes permanecerem na escola, o governo busca combater a evasão escolar e estimular a conclusão do ensino médio. A proposta atende a um problema concreto, mas também desperta questionamentos sobre até que ponto o Estado deve remunerar comportamentos que tradicionalmente seriam responsabilidade da família e do próprio estudante.

Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho enfrenta mudanças profundas. Empresários relatam dificuldades para preencher vagas e manter profissionais, enquanto especialistas apontam que transformações tecnológicas, mudanças culturais, novas relações de trabalho e diferentes expectativas das gerações mais jovens ajudam a explicar esse cenário. Não se trata de uma realidade produzida exclusivamente pelos programas sociais, mas de um fenômeno muito mais amplo.

Nesse contexto, o empreendedorismo surge como alternativa para milhares de brasileiros. Muitos encontram nele uma oportunidade de independência financeira. Outros esbarram em obstáculos conhecidos: excesso de burocracia, elevada carga tributária, dificuldade de acesso ao crédito e alta mortalidade das pequenas empresas. Empreender continua sendo um caminho possível, mas ainda distante de representar uma solução para todos.

Existe também uma dimensão política impossível de ignorar. Programas sociais tornaram-se ativos eleitorais de enorme relevância. Governos de diferentes espectros ideológicos ampliaram benefícios, reajustaram valores ou criaram novos programas. Poucos, entretanto, apresentam estratégias consistentes para reduzir o número de beneficiários por meio da geração de emprego, da qualificação profissional e do crescimento econômico sustentável.

A discussão, portanto, não deveria ser entre manter ou extinguir programas sociais. O verdadeiro debate consiste em encontrar um equilíbrio entre proteção e emancipação. Um Estado eficiente deve assegurar dignidade a quem precisa, mas também criar oportunidades para que essa assistência tenha prazo para terminar.

O sucesso de uma política pública não pode ser medido apenas pelo número de famílias atendidas, mas também pela quantidade de pessoas que conseguiram deixar a condição de dependência porque conquistaram trabalho, renda e autonomia.

Governos passam. Programas mudam de nome. As eleições se repetem. O desafio, porém, permanece o mesmo: construir um país onde a rede de proteção continue existindo para quem realmente precisa, mas onde o destino final de cada cidadão seja a independência, e não a dependência permanente do Estado.