Tem uma coisa que o político parece dominar com uma precisão impressionante, no Acre e nos demais estados: transformar quatro ou oito anos de mandato em uma eternidade de desculpas e quatro meses de campanha em uma eternidade de promessas.
É só chegar o período eleitoral para que os problemas do Acre, de repente, ganhem solução para tudo.
A estrada que passou anos esperando finalmente será concluída. A saúde, que há décadas enfrenta dificuldades, será revolucionada. O emprego vai surgir, a produção vai disparar, a segurança será fortalecida, a educação dará um salto e o Estado, enfim, encontrará o caminho do desenvolvimento.
Tudo parece tão fácil que dá a impressão de que basta entregar a faixa, a caneta e o gabinete para que, no dia seguinte, o Acre acorde transformado.
O problema é que muitos dos que hoje apresentam fórmulas milagrosas já tiveram a oportunidade de colocá-las em prática.
Alguns governaram. Outros ocuparam secretarias estratégicas. Muitos tiveram mandato, orçamento, influência e poder de decisão. E, quando voltam a pedir o voto, curiosamente aparecem com a mesma lista de problemas que juram saber resolver — como se nunca tivessem passado pelo governo.
É aí que mora a ironia.
Na campanha, quatro anos parecem suficientes para consertar décadas de dificuldades. Depois da posse, quatro anos se tornam pouco. Aí entram as justificativas: a herança recebida, a falta de recursos, Brasília, a burocracia, a crise, a gestão anterior, a economia, a chuva, a seca…
E o eleitor fica com a sensação de que, para finalmente ver o Acre melhorado, seria necessário um mandato de 30 anos.
Talvez até mais.
Nosso Acre velho de guerra já ouviu esse roteiro muitas vezes.
Quem já passou pelo poder costuma voltar à campanha com uma memória bastante seletiva. Lembra das grandes obras, dos grandes projetos e das conquistas do seu período. Mas parece esquecer as promessas que ficaram pelo caminho, os problemas que sobreviveram ao mandato e aquilo que poderia ter sido feito — mas não foi.
E quem está chegando promete fazer justamente o que os outros não fizeram.
É sempre assim.
O passado vira argumento para justificar o presente. O presente vira promessa para conquistar o futuro. E o futuro, quando chega, frequentemente encontra uma nova explicação para o que não aconteceu.
Há uma certa habilidade nisso.
Na época do pleito, o Acre parece caber inteiro em um plano de governo. Algumas páginas resolvem décadas de problemas. Um discurso resolve a saúde. Uma visita ao produtor resolve a produção. Uma caminhada resolve o desemprego. Uma promessa de investimento resolve a infraestrutura.
Depois vem o mandato — e o mandato parece ser pequeno demais para tanta promessa.
Não se trata de dizer que governar é fácil. Muito pelo contrário. Administrar um Estado com as dificuldades econômicas, geográficas e sociais do Acre exige planejamento, dinheiro, capacidade técnica e, principalmente, continuidade de políticas públicas.
Mas é justamente por isso que o eleitor deveria desconfiar da facilidade excessiva dos discursos.
Se tudo é tão simples, por que não foi feito quando havia poder, orçamento e oportunidade?
Essa talvez seja uma das perguntas mais incômodas que o eleitor possa fazer a quem já governou.
E vale para todos.
Não existe político eterno. Também não deveria existir promessa eterna. Quem já teve a caneta na mão precisa prestar contas não apenas do que fez, mas também do que prometeu fazer e não conseguiu entregar. Quem pretende voltar ao poder precisa apresentar mais do que um discurso bonito sobre aquilo que pretende fazer daqui para frente.
O Acre não pode continuar vivendo de inaugurações de esperança a cada quatro anos.
O eleitor merece menos frases de efeito e mais números. Menos promessa genérica e mais resultado. Menos “agora vai” e mais “foi feito”. Menos culpados pelo passado e mais responsabilidade pelo futuro.
Porque, no fim das contas, o problema não é prometer. Prometer faz parte da política.
O problema é transformar a promessa em profissão e o mandato em desculpa.
E o nosso Acre velho de guerra, apesar de pequeno no mapa, já tem memória suficiente para reconhecer quando alguém está vendendo futuro com aquilo que não conseguiu entregar no passado.





