Rio Branco, AC, 5 de setembro de 2026 18:51
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Fardado de Certezas

​Nonato ajeita a gola da farda de vigilante diante do espelho do banheiro. São seis horas da manhã. No canto do quarto, sobre uma cadeira de madeira, o ventilador gira devagar de um lado para o outro, tentando em vão espantar o mormaço que já começa a subir.

​Nonato é meu conterrâneo. Saímos do interior na mesma época, quando a poeira da estrada ainda cobria as nossas canelas. Eu segui para os estudos fora; ele ficou por aqui, lutando, teimando, buscando sair da invisibilidade com o pouco que a vida lhe ofereceu. A farda engomada que ele veste antes do sol esquentar não é vaidade; é o seu primeiro escudo contra o desprezo alheio.

​Montado em sua moto popular — a grande conquista financiada em prestações a perder de vista —, ele atravessa a Ponte Metálica logo cedo, quando a névoa ainda cobre as águas do Rio Acre. No trabalho terceirizado, mantendo a postura firme no posto, faz questão de usar os termos difíceis e as frases prontas que ouviu na televisão e nas redes do chefe. Para o meu conterrâneo, falar a língua da casa-grande foi a única ponte que encontrou para se fazer notado.

​Na hora do almoço, ele usa o vale alimentação para sentar num restaurante climatizado do centro, daqueles em que se sente um vitorioso só de ocupar a mesa. Foi ali que nos reencontramos, depois de anos sem nos ver.

​Ele me reconheceu de longe, puxou a cadeira com um sorriso largo e me deu um abraço apertado com cheiro de infância. Mas bastou o prato chegar para a armadura voltar ao corpo. Olhou ao redor, ajeitou a gola da farda e disparou:

​— A vida é dura! Mas o chefe abriu meus olhos. Ele mostra que hoje o Brasil só tá ruim porque o povo não quer trabalhar, quer tudo na mão. Só não vence na vida quem é preguiçoso.

​Sirvo um pouco de suco, tentando assimilar o golpe, mas ele não para. Encosta o corpo na cadeira e continua, com o peito estufado:

​— O chefe cobra duro, mas tá certo. Se o governo tirasse menos imposto, sobrava mais no bolso. Tá modernizando tudo, botando câmera inteligente pra cortar custo e manter a empresa forte!

​Olhei para ele sem saber o que dizer. A empresa manteve os contratos e o lucro, mas colocou na rua metade dos colegas — outros Nonatos, pais de família trocados pelo olho digital e despidos de direitos. A precarização engoliu os companheiros de farda um a um, mas meu amigo não consegue enxergar. Vê a lâmina cortar ao seu lado e comemora a tal modernização, sem perceber que é o próximo da lista.

​Ao terminar o almoço, ele chama o garçom com um estalo de dedos que nunca deu na nossa terra e encosta o cartão no leitor, pagando a conta com a satisfação de quem se julga recompensado.

​Ao ver aquela cena, lembrei que os tiranos só parecem grandes porque nós estamos de joelhos. O que eu assistia ali, do outro lado da mesa, era a mais triste e antiga das artes humanas — a da servidão voluntária. Ninguém precisou apontar uma arma para a cabeça do meu conterrâneo. A dominação não precisa de chicote quando nos estrutura a partir de ideias que pensamos ser nossas.

​Nonato vive acorrentado a pensamentos que não são dele. Aprendeu a gostar do peso da rédea, enfiando no próprio peito a faca envenenada de um discurso que o destrói, enquanto defende com paixão o chefe que amanhã o trocará por uma lente de câmera.

​É a tragédia do homem pago para vigiar o patrimônio alheio: protege com a própria vida os portões do castelo que jamais o deixará entrar.

​Olhei para o meu amigo do outro lado da mesa e guardei qualquer lição de moral no bolso. Quem sou eu para julgar a armadura de quem precisa dela para sobreviver?

​— Tu lembra, Nonato, — comecei baixinho — daquele banho de igarapé no interior, quando a gente não tinha nem sandália e achava que o mundo acabava na curva do rio?

​Ele parou por um segundo. O olhar desviou da farda e buscou o fundo da memória. A armadura amoleceu por um estalo de segundo.

​— Pois é, — continuei. — A gente não precisava da permissão de ninguém para existir.

​Ele não respondeu. Mas no silêncio que se fez na mesa, vi o menino do interior espiar por trás dos olhos do homem fardado de certezas.

​Olhei para o meu amigo e não senti raiva; senti uma piedade doída das nossas pequenas armaduras de papel. Não se salva uma alma pelo confronto ou apontando o dedo para o seu cativeiro.

​Puxei Nonato para um abraço demorado, desses que a gente dá sem pressa de soltar. Afinal, a vida é um sopro curto demais para a gente esquecer o cheiro da própria terra. Basta que ele se recorde do chão de onde veio para entender que nenhum gigante desse mundo jamais foi maior do que a sua alma.

Emylson Farias
Delegado de Polícia