Ao tentar se apresentar como um candidato distante do PT e do governo Lula, o ex-governador transforma sua trajetória política em um inconveniente eleitoral e abre um debate sobre coerência e lealdade
Há um limite entre atualizar o discurso político e negar a própria biografia. E é justamente essa linha que Jorge Viana parece disposto a cruzar.
No vídeo que circula nas redes sociais, o ex-governador procura construir uma imagem desvinculada do PT, do governo do presidente Lula e da própria trajetória que o projetou nacionalmente. A estratégia é evidente: falar diretamente ao eleitor acreano que hoje demonstra resistência ao partido, tentando convencer que sua candidatura representa algo diferente daquilo que ele próprio ajudou a construir durante décadas. Mas a história não pode ser reescrita conforme a conveniência eleitoral.
Jorge Viana foi eleito prefeito, governador por dois mandatos, senador da República e ocupou cargos de destaque graças ao capital político construído dentro do PT. Foi uma das principais lideranças petistas do país, defensor das bandeiras do partido e aliado dos governos petistas nos momentos de ascensão e também nos períodos de maior crise.
Agora, diante de um cenário eleitoral adverso para o partido no Acre, tenta apresentar-se como alguém acima dessa história. O problema é que não existe Jorge Viana sem o PT, assim como não existe a trajetória política que construiu sem a militância, os dirigentes e os eleitores que lhe confiaram sucessivas vitórias.
O eleitor pode até aceitar mudanças de posição. O que dificilmente aceita é a impressão de que convicções são substituídas por cálculos eleitorais.
Quem acredita que o PT errou tem o direito de romper publicamente com o partido, explicar suas razões e assumir as consequências dessa decisão. O que soa contraditório é continuar carregando toda a herança política construída ao longo de décadas enquanto se tenta esconder justamente a origem dessa trajetória.
A política exige coragem para defender ideias quando elas rendem votos e, principalmente, quando deixam de render. A coerência costuma valer mais do que qualquer estratégia de marketing.
Ao transformar sua própria história em um problema de campanha, Jorge Viana acaba prestando um desserviço não apenas ao PT, mas também à memória política do Acre. Afinal, ninguém consegue apagar o caminho que percorreu apenas porque a paisagem eleitoral mudou.
*Zé Américo Silva é jornalista e publicitário




