”Não adianta, é tudo farinha do mesmo saco.” Ouvi essa frase há poucos dias, dita sem alarde por um barbeiro enquanto ajeitava a tesoura. É um desabafo sincero, dolorido, que se ouve quase diariamente nas conversas de calçada, nas esquinas e nas filas de supermercado. De tanto ouvir promessas voando com o vento das campanhas, as pessoas aprenderam a se proteger com uma descrença resignada. Virou uma espécie de anestesia coletiva: fingir que não se importa para não se decepicionar de novo.
O problema é que esse desencanto não nasce por acaso — ele é pacientemente construído. A ideia de que a política não presta não é fruto do acaso: ela é formulada por pensadores a serviço dos privilégios e inoculada desde cedo nos bancos de escola, nas telas e nas conversas de ocasião. Constrói-se uma tese sofismática para que o cidadão, imerso no bombardeio de opiniões prontas, adote como sua uma raiva que só interessa aos outros. Afinal, para quem já é dono do jogo, nada é mais conveniente do que ver o povo pegar nojo do único instrumento que tem para cobrar mudanças.
É justamente sobre essa grande ilusão que o sociólogo Jessé Souza lança luz em suas obras sobre a formação da sociedade brasileira. Ele nos ajuda a compreender que é preciso ser muito ingênuo — ou mal-intencionado — para acreditar que as falhas éticas são vícios exclusivos da política, ou que o setor privado funciona como um santuário de neutralidade e virtude.
Afinal, será mesmo que o dono de um grande grupo econômico escolhe os seus diretores e os altos executivos apenas por critérios de neutralidade e competência? A verdade é que o topo dos grandes negócios muitas vezes continua reservado às alianças familiares e aos círculos de privilégio. No fundo, essa velha mania de tratar o que é de todos como se fosse extensão do quintal de casa nunca foi exclusividade dos gabinetes da política — ela sempre esteve muito bem acomodada no andar de cima da iniciativa privada.
A história brasileira demonstra que o poder econômico jamais dispensou a mão do Estado. Pelo contrário: quando o mar ficou revolto, o setor público sempre funcionou como o seu fiador de luxo. Quando o país precisou trocar o trabalho escravizado pelo assalariado, foi o Estado que pagou a viagem dos imigrantes. E quando as safras de café encalharam, foram os cofres públicos que viraram o balcão de socorro para garantir o lucro dos grandes produtores.
Quando Getúlio Vargas assumiu em 1930 e começou a mexer nesse tabuleiro, a resposta da oligarquia paulista em 1932 veio disfarçada sob o belo manto da “defesa da democracia”. Mas de que democracia falavam, se na época nem as mulheres nem os analfabetos podiam votar e a imensa maioria do povo nem existia para as urnas? O que estava em jogo, na verdade, não era a liberdade do povo, mas a tentativa da elite de tomar de volta as rédeas do seu porto seguro.
É aqui que mora a grande jogada: construiu-se, com precisão de alfaiate, um enredo bem amarrado para convencer o cidadão comum a demonizar o Estado e pegar nojo da política. Vende-se a ideia de que o setor público é o único ninho da corrupção, que o político não presta e que votar não muda nada. Assim, anestesiado pela mágoa, o povo sacrifica o próprio voto, abandona os seus direitos e entrega de mão beijada, aos mesmos de sempre, a chave do Estado que eles próprios nunca aceitaram dividir.
Quem já tem a vida plenamente estruturada tem menos dependência dos serviços essenciais. Mas para a família do pequeno produtor, para quem trabalha na roça, nasce na periferia ou nos ramais do nosso Acre, o Estado necessário — aquele que garante escola, saúde e segurança — é a única ponte concreta para a dignidade.
Foi sob essa perspectiva que Getúlio se tornou um marco divisor. Longe de ter sido um líder impecável, carregando as contradições dos seus anos no poder, Getúlio compreendeu que o Brasil precisava superar o modelo de oligarquias regionais. Ao consolidar a CLT, a previdência e o salário mínimo, ele usou a estrutura pública para conferir cidadania concreta a milhões de trabalhadores invisíveis.
Essa lição histórica desembarca no nosso tempo presente. Com o encerramento das convenções partidárias no dia 5 de agosto, a disputa deixa os gabinetes e ganha finalmente as ruas. É o momento em que a política volta para onde nunca deveria ter saído: para as mãos do povo. É quando a soberania popular reassume o protagonismo e o voto se afirma como a ferramenta mais valiosa e poderosa do cidadão.
É natural que com as ruas cheias venham o barulho e o calor das disputas. Mas quando a fumaça das primeiras impressões e o falatório das calçadas finalmente assentarem, será a hora de exercitar a paciência de olhar para a essência.
Quando o debate se limita ao jogo dos bastidores — às meras especulações de quem larga na frente ou de quem tem mais estrutura —, perde-se a chance de discutir a vida real. Esse ruído de superfície não constrói consciência, não ajuda o cidadão a pensar por conta própria e só distrai do essencial. É preciso esperar a poeira baixar e a água decantar para ver o que realmente sobra no fundo do copo. Afinal, o que está sendo proposto de concreto ou não passa de casca vazia?
Um estado jovem e promissor como o nosso Acre não pode pautar escolhas tão decisivas pelo tom do fanatismo ou pelo ruído das torcidas organizadas. As decisões que importam de verdade não deixam rastro na poeira dos palanques; deixam marcas na vida real. Quando as luzes da campanha se apagarem, o que precisa sobrar para as nossas famílias é o compromisso concreto com a dignidade do trabalho, o desenvolvimento dos municípios e a proteção social dos nossos jovens.
A verdadeira maturidade política exige olhar para além dos slogans. É preciso cobrar propostas concretas e exigir o debate aprofundado dos temas estratégicos que realmente movimentam o desenvolvimento do nosso estado. O voto continua sendo o gesto mais soberano e transformador que o cidadão carrega nas mãos — e o futuro do Acre depende, mais do que nunca, da nossa coragem de enxergar além da espuma.
Emylson Farias
Delegado de Polícia





