Rio Branco, AC, 23 de julho de 2026 15:40
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Chico não foi o único: onde estavam alguns políticos e tantos outros quando jornalistas do Acre foram vítimas de violência?

A agressão sofrida pelo jornalista e radialista Chico Melo, em Cruzeiro do Sul, é grave demais para ser reduzida a uma nota de solidariedade, a uma postagem protocolar ou, pior, a uma fotografia política cuidadosamente publicada nas redes sociais. Chico teve a residência invadida durante a madrugada por criminosos armados, foi agredido fisicamente, teve bens violados e relatou ter sido ameaçado.

É um daqueles episódios que deveriam fazer o Acre parar por alguns minutos e olhar para si mesmo.

A pergunta que fica não é apenas quem invadiu a casa de Chico Melo. Essa resposta cabe à investigação policial, que já foi instaurada para apurar o crime e identificar os responsáveis. A pergunta que precisa ser feita pela sociedade é outra: por que tantos profissionais da comunicação parecem estar cada vez mais expostos à violência, à intimidação e ao medo?

E há uma segunda pergunta, talvez ainda mais incômoda: onde estavam alguns dos que hoje se apresentam como defensores da imprensa quando outros jornalistas acreanos passaram por situações semelhantes?

Porque Chico não é o primeiro.

Profissionais da imprensa do Acre já enfrentaram ameaças, agressões, perseguições e episódios de invasão de suas próprias casas. Em diferentes momentos, jornalistas e comunicadores tiveram sua segurança pessoal colocada em risco por causa do trabalho que realizam. Muitos desses casos, porém, não receberam a mesma repercussão, a mesma indignação pública ou o mesmo empenho político que se vê agora.

Não se trata de diminuir a gravidade do que aconteceu com Chico Melo. Ao contrário. Trata-se de ampliar a discussão.

Se a violência contra um jornalista é inaceitável hoje, também deveria ter sido ontem. E continuará sendo amanhã, independentemente do nome da vítima, do veículo em que trabalha, da linha editorial que segue ou da simpatia política que desperta.

A liberdade de imprensa não pode ter partido. Não pode ser de esquerda ou de direita. Não pode valer para o jornalista amigo e deixar de valer para aquele que critica. Não pode ser defendida quando interessa e esquecida quando incomoda.

É justamente nos momentos de maior tensão que se mede o compromisso de uma sociedade com a democracia. Defender a imprensa não significa concordar com tudo o que ela publica. Significa reconhecer que o jornalista precisa ter liberdade para investigar, perguntar, criticar e informar sem transformar sua profissão em uma sentença de risco.

Por isso, é legítimo questionar a súbita mobilização de algumas figuras públicas. A solidariedade é necessária e bem-vinda. Mas ela não pode ser seletiva.

Não se pode esperar a próxima agressão para lembrar que jornalistas também são cidadãos.

O caso Chico Melo deveria servir como um ponto de inflexão. Um momento para que entidades de classe, empresas de comunicação, autoridades policiais, Ministério Público, Poder Judiciário e representantes políticos discutam medidas concretas para proteger profissionais que trabalham diariamente levando informação à população.

O jornalista não pode ser lembrado apenas quando apanha. Não pode ser lembrado apenas quando sua casa é invadida. Não pode ser lembrado apenas quando o sangue aparece na fotografia.

É preciso lembrar também quando ele está sozinho diante de uma ameaça. Quando recebe uma mensagem intimidatória. Quando sofre pressão por uma reportagem. Quando é perseguido nas redes sociais. Quando familiares são usados para tentar silenciá-lo. Quando precisa escolher entre publicar uma informação de interesse público ou preservar a própria segurança.

A violência contra a imprensa raramente começa com um ataque físico. Muitas vezes, começa com a tentativa de desqualificar o profissional, destruir sua reputação, intimidá-lo e convencê-lo de que é melhor ficar calado.

Por isso, o caso de Chico Melo precisa ser investigado com rigor. Os responsáveis precisam ser identificados e responsabilizados. A sociedade acreana precisa saber o que aconteceu e por quê. O Governo do Estado informou que a Polícia Civil instaurou inquérito e que as diligências estão em andamento. É fundamental que a investigação avance com rapidez e transparência.

Mas é preciso ir além da investigação de um único caso.

O Acre precisa discutir a segurança de seus jornalistas. Precisa olhar para trás e lembrar daqueles que também foram ameaçados. Precisa perguntar por que algumas agressões ganharam manchetes enquanto outras foram esquecidas.

Precisa cobrar das autoridades a mesma disposição para investigar todos os casos. E precisa, sobretudo, impedir que a violência contra jornalistas seja transformada em oportunidade de marketing político.

Porque solidariedade de verdade não precisa de palanque. Não precisa de slogan. Não precisa de fotografia. Solidariedade de verdade se transforma em cobrança, investigação, proteção e justiça.

Chico Melo merece solidariedade. Mas a imprensa acreana também merece memória.

E talvez essa seja a maior lição deste episódio: quando um jornalista é atacado, não é apenas um profissional que está em perigo. É a própria sociedade que corre o risco de perder uma de suas principais ferramentas para enxergar a realidade.

Hoje foi Chico Melo.

Amanhã pode ser qualquer outro.

E, quando chegar a próxima vez, talvez seja tarde demais para perguntar onde estavam aqueles que agora aparecem nas fotografias.