Toda eleição produz vencedores e derrotados. Mas há um tipo de disputa em que todos perdem: aquela em que a política deixa de ser um espaço de convencimento para se transformar em um campo de batalha moral. É para esse cenário que o Brasil parece caminhar às vésperas das eleições de 2026.
A polarização, que em outros momentos surgiu como consequência das diferenças ideológicas, tornou-se, hoje, um método de sobrevivência política. Ela mobiliza militâncias, amplia o alcance nas redes sociais, garante visibilidade e transforma qualquer discordância em combustível eleitoral. O adversário deixa de ser alguém que pensa diferente. Passa a ser tratado como uma ameaça que precisa ser eliminada do debate público.
Nesse ambiente, a política perde sua principal função: oferecer soluções.
A esquerda responde à direita; a direita reage à esquerda. Enquanto isso, o cidadão comum continua esperando respostas para problemas que não cabem em hashtags nem em discursos inflamados. O custo de vida aumenta, a violência muda de endereço, a educação acumula déficits históricos, e a saúde pública continua convivendo com filas que não distinguem ideologia.
A radicalização produz um efeito perverso. Ela simplifica um país complexo e obriga milhões de brasileiros a escolher entre dois campos, como se não existissem nuances, divergências internas ou caminhos intermediários. Quem tenta ocupar o centro do debate frequentemente é acusado de covardia, oportunismo ou falta de convicção. Em tempos de extremismo, a moderação passa a ser confundida com fraqueza.
As redes sociais ampliaram esse fenômeno. Seus algoritmos recompensam a indignação, não a ponderação; o conflito, não o consenso. O político que grita costuma receber mais atenção do que aquele que explica. A frase de efeito vale mais do que a proposta tecnicamente viável. A viralização substitui o argumento.
Essa lógica interessa aos extremos porque transforma a política em identidade. O eleitor deixa de avaliar resultados e passa a defender um grupo. A crítica ao líder é interpretada como um ataque pessoal. A realidade torna-se secundária diante da fidelidade.
O problema é que os governos, independentemente de quem os ocupe, são obrigados a administrar um país real. Orçamentos não obedecem a narrativas. Hospitais não funcionam por decreto ideológico. Estradas não são recuperadas por discursos. A vida cotidiana exige pragmatismo, negociação e capacidade de construir maiorias — exatamente as habilidades que a polarização trata como defeitos.
A democracia não exige unanimidade. Exige instituições fortes, respeito às diferenças e disposição para reconhecer que nenhuma corrente política detém o monopólio da verdade. As grandes transformações das sociedades democráticas nasceram da capacidade de conciliar interesses divergentes, e não da destruição do adversário.
As eleições de 2026 serão um teste dessa maturidade. Mais do que decidir quem ocupará o Palácio do Planalto, os governos estaduais e o Congresso Nacional, o eleitor terá a oportunidade de definir que tipo de debate deseja estimular: um debate baseado no medo, na hostilidade e na permanente divisão do país; ou um debate que devolva protagonismo às ideias, aos resultados e à responsabilidade pública.
Governos passam. Mandatos terminam. A democracia, porém, precisa permanecer de pé quando as urnas são fechadas. E ela sobrevive não quando um lado derrota o outro, mas quando ambos aceitam que, depois da eleição, continuarão dividindo o mesmo país.





